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Meio Ambiente e Campos de GOLF - Porque construí-los?

Meio Ambiente e Campos de GOLF

Porque construí-los?

Não é a primeira vez que escrevo sobre projetos de Campos de Golf, sua operação e sua interação com o meio ambiente. Também, com 25 anos de atuação na área. . .

     Isto porque este tema, apesar de espinhoso, suscita paixões de todos os lados e acaba por ser tratado, em muitos casos, sem o pragmatismo e objetividade necessárias.

     O objetivo deste texto não tecer comentários sobre o jogo Golf em si. O que busco, pretensiosamente, é mostrar ao leitor, como deve (deveria) ser concebido um projeto de Golf, o porquê de elaborá-lo e a importância de um bom projeto nas interações do futuro campo com o meio ambiente.

    E, para começar, põe-se logo a pergunta: - Porque um investidor “perderá área” para construir o equipamento Campo de Golf no seu projeto/empreendimento turístico/imobiliário?

     É importante iniciar o conceito do projeto do campo de Golf, com uma anamnese detalhada com o Cliente/Empreendedor, pois há campos de Golf, mundo afora,  elaborados/concebidos para Clubes, para Condomínios, para Resorts, para Empreendimentos turístico/imobiliários, enfim, uma grande diversidade de tipos diferentes de relvados de Golf, com finalidades bem distintas, e com custos de projeto, construção e manutenção/operação, igualmente distintos.

     Assim, essa anamnese é fundamental para que o campo de Golf tenha um BOM projeto. A elaboração de um bom projeto depende dessa anamnese e da perfeita interface Cliente/Empreendedor e Projetista – aí se define que produto se quer!

     Um campo de golfe, basicamente, é uma mistura de conceitos, emoções, percepções e idéias ; é uma oportunidade rara, para o Projetista de criar e perpetuar um legado duradouro na paisagem.  É primordial, também,  compreender como adaptar o projeto do campo de Golf, respeitando os recursos naturais existentes no terreno, para dar a máxima valorização ao ambiente natural. Isso poupa recursos financeiros e ambientais. Quanto menor a movimentação de terra, mais barata fica a execução, para exemplificar...

     Após a anamnese e a definição do produto Campo de Golf, o trabalho em conjunto, de equipes multidisciplinares (Arquitetos, Engs. Agrônomos, Engs. Ambientais, etc), integrando idéias, conceitos e especificações, no processo de concepção e construção do campo, podem proteger e desenvolver a paisagem e a ecologia para uma futura operação sustentável.

     Ainda, no projeto devemos ter em mente que o campo de Golf a ser construído (Olímpico, de Condomínio, de Clube, de Resort...) deve ter um percurso  que desafie e acolha jogadores de todos os níveis e habilidades, aumentando o prazer da sua experiência de Golf e elevando o seu nível de interesse no jogo.

     O Campo deve, portanto, acomodar as habilidades e ferramentas de jogo de amadores e profissionais, respeitando a viabilidade econômica de construção e da futura operação/manutenção. O campo, e seu percurso, tem de acomodar jogadores amadores (alto handcap) e profissionais. Todos tem de se sentir desafiados e interessados a completar o percurso. E tudo isso dentro de um orçamento de construção e manutenção ajustado aos interesses do Cliente/Empreendedor.

     Compreendidos os critérios de projeto de Campo de Golf, acima descritos, voltemos ao prólogo deste texto: Porquê construir um campo de Golf?

     À primeira vista inserir um Campo de Golf num empreendimento pode causar espécie ao Investidor. Pode até mesmo parecer um contra senso usar o equipamento Golf num Empreendimento turístico/imobiliário, porque “perde-se” parte da área que poderia ser diretamente vendável (lotes, por exemplo) e têm-se os custos de construção e manutenção/operação do Campo.

     Porém, há uma série de vantagens, já consolidadas e comprovadas pela experiência, algumas delas citadas abaixo, que continua levando à construção do equipamento  Campo de Golf  em projetos de Empreendimentos de sucesso em todo o mundo.

Agrega valor ao empreendimento (Hotel, Resort, Condomínio ou loteamento)  – maior valor cobrado por unidade negociada, se comparado a empreendimentos vizinhos;

MEIO AMBIENTE - Manutenção (ou criação) de áreas verdes no empreendimento – o que pode vir a facilitar aprovação nos órgãos ambientais e, mais uma vez agrega valor (o verde vende, pois é qualidade de vida); Aqui é vital pontuar que um campo de golf não é uma monocultura e que pode estar perfeitamente integrado à paisagem que o circunda. Está comprovado: a construção de campos de golfe traz inúmeros benefícios para a comunidade e o meio ambiente onde se insere. Esse é o resultado de uma pesquisa apoiada pela United States Golf Association (USGA), envolvendo mais de 30 universidades Norte Americanas, para avaliar a interação entre o golf e o meio ambiente. Entre as conclusões dos pesquisadores, respaldados por dados reais obtidos por universidades idôneas, constatou-se que roughs e árvores proporcionam bom habitat para espécies silvestres, pois, em média, 60% da área de um campo de golf são constituídos de roughs e espaços não destinados a jogo, locais ideais para muitas espécies silvestres de flora e fauna – diferentemente de uma exploração agrícola, por exemplo.

     Há inclusive, nos Estados Unidos, um programa desenvolvido pela USGA e Audubon Society of New York, para adaptação dos animais, onde inúmeras espécies, de castores a renas, roedores e pássaros fazem dos campos de golfe seus lares.

     Também Estados Unidos, campos de golfe são utilizados na recuperação de áreas danificadas por mineração e aterros sanitários, pois a relva produz matéria orgânica que enriquece o solo, captura CO2, etc. Campos belíssimos foram construídos onde anteriormente haviam minas abandonadas, áreas de exploração agrícola e depósitos de lixo, embelezando a cidade e valorizando a comunidade.

     Os gramados também exercem funções fundamentais de equilíbrio no meio ambiente, entre os quais a proteção contra a erosão, durante chuvas torrenciais, retendo 20 vezes mais de solo do que áreas tradicionais de cultivo.

     Também absorvem e filtram a água da chuva, e, por essa razão, campos de golfe tem sido irrigados com água “poluída” ou “salina”, para a reciclagem de água para comunidades.

      A relva atenua o calor e melhora o ar que respiramos. Áreas de grama natural são até duas vezes mais frias do que áreas com grama sintética, e há espécies de relva que absorvem consideráveis quantidades de CO2, sendo uma atenuante à poluição para grandes metrópoles. Outros benefícios são a redução da poluição sonora e do brilho da luz solar, o que não acontece com o asfalto, solo nu e o concreto.

Geração de receitas extras –  green fee, locação de equipamentos, eleva recolhimento de impostos ;

Saúde  A prática de esportes ao ar livre, como o golf, auxilia no combate ao stress  e melhora a saúde, com aceleramento comprovado na recuperação de doentes. As caminhadas reduzem o colesterol; os gramados densos e bem tratados reduzem a formação de ervas daninhas e pólen, que agravam a condição de pessoas alérgicas, além de inibir o surgimento de pragas como mosquitos, piolhos e carrapatos.

Criação de empregos especializados (diretos e indiretos); Centenas de empregos, diretos e indiretos, são criados na elaboração do projeto, construção, manutenção e operação de campos de golf;

Toda a Região é valorizada – o Golfer (golfista) é consumidor de elevado poder aquisitivo e a região onde está inserido o Campo de Golf passa a ter a convivência direta com este consumidor ;

     Agora referindo-me especificamente a Portugal, passo a referir alguns dados trazidos à luz, pelo colega, Eng. Simão da Cunha , na apresentação na  “CONFERÊNCIA “DESAFIOS DA ÁGUA NA SOCIEDADE PORTUGUESA” 18 DE JUNHO DE 2018, UNIVERSIDADE DE ÉVORA (COLÉGIO DO ESPÍRITO SANTO)“, onde aborda os consumos de água na área de turismo (hotéis, piscinas, jardins, campos de golf. . .). Sendo o turismo uma fonte de rendimentos importante para muitos países, como Portugal, os dados que passo a citar, se contrapõem a algum ceticismo... senão vejamos:

Campo de Golfe Vs. Culturas Agrícolas - Um campo de golfe com 18 buracos possui aprox. 30 ha (hectares) de área regada. O consumo médio de água para rega é de 240.000 m3/ano, o que equivale a 8.000 m3/ha. 

Comparativamente à rega de algumas culturas agrícolas, refere-se em termos dos consumos de água:

  • Tomate 9.000 m3/ha/ano
  • Golfe 8.000 m3/ha/ano
  • Maçã 7.500 m3/ha/ano
  • Milho 7.000 m3/ha/ano
  • Vinha 3.000 m3/ha/ano

     É interessante fazer a comparação das áreas ocupadas pelas culturas no país e os consumos totais de água, para termos uma perspectiva, em números absolutos, do que acontece em Portugal.

  • Milho 89.000 ha; 623 Mm3
  • Vinha 177.000 ha; 531 Mm3
  • Tomate 19.470 ha; 175 Mm3
  • Maçã 14.500 ha; 109 Mm3
  • Golfe 2.100 ha; 16 Mm3

Sendo Mm3 (Milhão de metro cúbico)

As rentabilidades médias comparadas entre a atividade do golf e das diferentes culturas, por área ocupada, são:

  • Golfe €17.000/ha
  • Maçã €7.000/ha
  • Vinha €300/ha
  • Tomate €50/ha
  • Milho €50/ha

As rentabilidades comparadas entre a atividade do golf e as diferentes culturas, por metro cúbico de água consumida na rega, são:

  • Golfe €2,125/m3
  • Maçã €0,93/m3
  • Vinha €0,1/m3
  • Milho €0,007/m3
  • Tomate €0,006/m3

     Os dados apresentados pelo colega, Eng. Simão da Cunha, são contundentes e são oriundos de pesquisas solicitadas pela RTA (Região de Turismo do Algarve), onde se concentram 70% das voltas de golf de Portugal, onde o turismo de golf gera uma receita de mais de 500 milhões de Euros/ano e é responsável por mais de 16.800 empregos. E conclui a apresentação, de forma contundente:

Ideias Chave

  • O Golfe tem pouca expressão no consumo de água de rega, quando se compara com a agricultura.
  • A actividade do Golfe gera rentabilidades que permitem investimentos em inovação e tecnologia para a gestão da água de rega e dos habitats.
  • A gestão da água é um aspecto fundamental na gestão de um campo de golfe, quer por razões agronómicas quer por razões económicas.
  • Um Campo de Golfe não é uma monocultura.
  • Os Campos de Golfe são um excelente habitat para a fauna, em particular para a avi-fauna e para a diversidade de espécies vegetais.

      Finalizando, este já prolixo texto, deixo abaixo o depoimento de André Jordan, à ADIT. Nada mais, nada menos que um dos maiores ícones em Comunidades Planejadas, Condomínios e Empreendimentos turístico/imobiliários no mundo:

 

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Comentário de Artur Melo em 19 maio 2020 às 12:55
Comentário de Gilberto Fugimoto em 26 novembro 2019 às 17:44

Excelente Artur,

Muito bem desenvolvido o tema!

abração

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