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A COMPACTAÇÃO DO SOLO É UM PROBLEMA EM SISTEMA PLANTIO DIRETO?

O processo de compactação dos solos tropicais é diretamente associado ao manejo físico, químico e biológico.  Antes de responder sobre a gravidade do problema, temos que estabelecer qual o sistema mais adequado ao manejo desses solos.  O Plantio Direto, como qualquer outro sistema de manejo do solo, da água e das culturas que busca a sustentabilidade da atividade agropecuária, é definido como aquele no qual a implantação da cultura é feita sobre restos de culturas anteriores, a palhada, com a rotação de culturas, sem qualquer movimentação do solo, restrita somente à linha ou local de semeadura ou plantio.  O sistema ideal é aquele que integra técnicas de manejo visando a redução de custos e a qualidade ambiental, permitindo interações biológicas e processos naturais benéficos  no solo.  Em resumo, o sistema deve permitir a exploração do potencial genético das culturas com o menor impacto ambiental negativo.

A adoção parcial do Sistema Plantio Direto - SPD, sem atender os requisitos mínimos (ausência de revolvimento, biodiversidade - rotação de culturas, e cobertura do solo – palhada), tem provocado inúmeras ocorrências de degradação estrutural nas camadas superficiais do solo, muitas vezes diagnosticado como compactação.  Isto tem feito com que o agricultor movimente o solo com arados, grades ou escarificadores, destruindo a estrutura do solo e desfazendo o trabalho biológico e físico construídos após vários anos, provocando a rápida mineralização da matéria orgânica.  

A pergunta sobre compactação do solo leva a outra questão:  é necessário arar ou gradear o solo?,  Essa questão já foi levantada por Edward Faulkner em 1943 no livro “Plowman’s Folly” e por Shirley Phillips e Harry Young no livro “No-tillage Farming”, em 1973, o qual é, ainda hoje, referência sobre o SPD.  Com o conhecimento existente hoje pode-se afirmar que as razões que transformaram o preparo do solo após algum período de pousio (sem preparo ou sob pastagem) como uma verdade agronômica, anunciada extensivamente na formação de profissionais da área agronômica (técnicos de nível médio ou de nível superior - engenheiros agrônomos, agrícolas, etc.), já não existem.  Ao contrário, pelo mesmo conhecimento, essa verdade pode ser qualificada como “a verdade dos tolos”, pela resposta encontrada a curto prazo e a reconhecida insustentabilidade, além dos conhecidos prejuízos ambientais e econômicos.

Demandas e soluções indicadas na Plataforma Plantio Direto

A pergunta sobre a extensão do problema de compactação do solo foi igualmente apontada por agricultores com ampla experiência em SPD, consultados no trabalho de organização da Plataforma Plantio Direto, parceria pioneira encabeçada pela FEBRAPDP, Embrapa e CNPq, envolvendo todos os setores envolvidos, com apoio da APDC, ABID e FUNAPE/GO.  O problema foi priorizado em 6o lugar com 5295 pontos.  Nesse trabalho, produtores indicam a necessidade de práticas visando a correção da compactação do solo somente quando essa for tecnicamente constatada.  Entre essas práticas, destaca-se: o bom preparo do solo antes do início do SPD; a descompactação mecânica nos casos de maior gravidade (subsolador / escarificador na profundidade adequada); aumento da fertilidade do solo para produção de palha; e, a rotação de culturas.  Foram também destacadas práticas visando a prevenção da compactação: redução do trânsito na lavoura; utilização de pneus especiais; controle de tráfego;  e, racionalização do uso do maquinário; adaptação/adequação da semeadora (disco de corte ou haste sulcadora – botinha ou facão);  consorciação e sucessão de culturas utilizando espécies com alta relação C/N, exigências nutricionais e sistemas radiculares diferentes, com preferência a espécies com sistema radicular mais profundo e vigorosos, adaptados a cada região para a descompactação biológica do solo e a formação / aumento de palhada;  utilização de práticas que promovam o aumento da matéria orgânica no solo; e,  finalmente, o consórcio de culturas de coberturas do solo.  Já nos sistemas de integração lavoura-pecuária, é evidenciada a necessidade de estabelecimento de critérios para o manejo das pastagens e do gado, incluindo a correção do solo para maior produção de forragem antes da implantação das culturas anuais.

O processo de compactação do solo

A compactação do solo pode ser resumida como uma alteração estrutural no solo que resulta no aumento da densidade do solo, seja pelo aumento da massa e/ou pela diminuição do volume do solo.  O processo é caracterizado pelo impedimento mecânico ao crescimento de raízes e à redução da infiltração e movimento de água no solo. 

O aumento da densidade pode ter por causa os processos pedogenéticos, próprios da formação de solos onde a lixiviação de argila está presente, ou por processos naturais, como a consolidação ou subsistência do solo, quando bastante pulverizado e desorganizado (não estruturados), como acontece em solos sob a ação intensa de grades pesadas e niveladoras.  Segundo Camargo e Alleoni (1997) “quanto maior a pulverização do solo, maior será o potencial de compactação posterior”.

Diferentemente, o  adensamento pode ser fruto da pressão exercida durante o trabalho de máquinas e implementos, o pisoteio de animais, ou a ação do trabalho de discos -  arados e discos ou de aivecas na mesma profundidade, formando pés de grade/arado.  Esse processo de degradação estrutural acontece de duas formas: superficialmente como um encrostamento (camada impermeável causada pelo impacto da chuva sobre o solo  excessivamente pulverizado e descoberto), que pode ser evitado pela manutenção da cobertura vegetal, que protege o  solo contra o impacto das gotas de chuva, dissipando sua energia  cinética, reduzindo a desagregação, além de reduzir a  velocidade de escorrimento da chuva; ou, subsuperficialmente, como uma compactação,  resultado de forças externas (maquinas / implementos, animais, etc.) e internas (ciclos de umedecimento/secagem), com destaque ao processo processo de translocação vertical de argilas e colóides do solo no perfil (argilo-eluviação).  A interação desses processos físicos, com processos físico-químicos, químicos e biológicos, descritos por Kochham et al. (2000[i]), resulta na redução do volume de poros, em especial de macroporos, impedindo o movimento de água e o crescimento de raízes, definindo assim o processo de compactação  do solo.  Esse processo depende de alguns fatores responsáveis pela maior ou menor susceptibilidade, tais como:  umidade do solo, implemento ou regulagem inadequados para a operação pretendida e  cultivos excessivos, ausência de cobertura do solo (palhada ou mulch).

Mesmo quando não chega a prejudicar o crescimento das raízes ou o movimento vertical de água no solo, os métodos de avaliação disponíveis atualmente levam o agricultor a utilizar práticas mecânicas destrutivas (aração, escarificação, subsolagem, etc.).  Por outro lado, sob um manejo considerado correto, o SPD pode causar uma evolução no sentido de aproximar as alguns aspectos favoráveis das condições estruturais observadas sob vegetação natural (mata/floresta).

Características dos solos tropicais e subtropicais

Os solos com B latossólico predominam na paisagem subtropical e tropical.  Sob vegetação natural, esses solos apresentam uma ótima estrutura, com a predominância de microagregados em todo o perfil.   No entanto, pela ausência de agentes ativos de cimentação, esses solos apresentam uma macroestrutura bastante frágil, a qual, uma vez submetida ao manejo intensivo, surgem modificações que se manifestam por uma forte degradação estrutural, uma diminuição do teor de matéria orgânica e uma evolução desfavorável das propriedades fisico-hídricas (Freitas, 1994). 

O uso do solo com gramineas, como em pastagens, permite a reorganizaçao estrutural do solo pelo efeito físico das raízes e o efeito indireto de polissacarideos, fruto da atividade biológica (microorganismos).  O uso com culturas de baixa relação C/N (leguminosas) permite o aumento dos teores de matéria orgânica e a decorrente aumento de capacidade de retenção de água e de cations, afetando a fertilidade e a estabilidade estrutural do solo.

Definição em função das mudanças morfológicas, crescimento de raízes, infiltração e resistência a penetração (coesão)

A ação antrópica na condição estrutural do solo, através do manejo físico, químico e biológico, pode ser definida por: i) mudanças morfológicas das camadas do solo, que indicam a degradação pela presença de estruturas maciças que se desfazem em blocos angulares.  ii) exame do crescimento de raízes, que mostra a existência de camadas compactadas e que requer o suficiente para permitir distinguir o impedimento químico, causado pela toxidez ou a ausência de nutrientes;  iii) a infiltração de água no solo, que dá indicações da capacidade de infiltração, assim como a morfologia da frente de molhamento; e, a resistência à penetração, utilizando penetrometros verticais e horizontais, permitindo que, a partir da interpretação segundo a umidade do solo e considerando as características de  crescimento das raízes.

O diagnóstico correto da condição estrutural do solo e o entendimento dos processos envolvidos devem ser considerados quando da recomendação de práticas mecânicas e/ou biológicas visando a sua aliviação.  A melhoria estrutural do solo exige uma combinação de práticas mecânicas e biológicas, as quais devem incluir a rotação de culturas e o uso de culturas de cobertura do solo.  Como práticas mecânicas temos o uso de facões rompedores, escarificadores, subsoladores, grades pesadas  e arados, escolhidas em termos do impacto que pode causar, da eficiência, economicidade e potencial de recuperação do solo.  Praticas biológicas são baseadas, principalmente, no uso de culturas favoráveis à aliviação do processo de degradação estrutural.  Tanto culturas principais ou de verão (arroz, milho, soja, algodão, etc.) como culturas econômicas de safrinha ou entressafra ou culturas exclusivas de cobertura (safrinha ou entressafra). 

 



[i] Kochhann, R. A.; Denardin, J. E. & Berton, A. L.  2000  Compactação e descompactação de solos.  Passo fundo:  Embrapa Trigo.  20 p.  (Embrapa Trigo, Documentos, 19).

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Comentário de José Leonel Rocha Lima em 21 junho 2015 às 18:03

Excelente artigo publicado no ano 2000.

Fundamental para um bom aproveitamento das palestras que estão programados no Simpósio do Ano Internacional do Solo que será realizado no Rio de Janeiro pelo AIS - Ano Internacional do Solo 2015.

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