Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

A CRISE DE ENERGIA E A DEGRADAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS

 

 

 

 

 

 

A CRISE DE ENERGIA E A DEGRADAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS  - SOLO, AR, ÁGUA E BIODIVERSIDADE

 

AutoresPEDRO LUIZ DE FREITAS, CELSO V. MANZATTO, e HEITOR LUIZ DA COSTA COUTINHO (In memoriam)

Texto publicado em Boletim Informativo da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa (MG) volume 26, n. 4, outubro/dezembro de 2001, pp. 7 a 9

Atribuir a atual crise de energia apenas a falta de investimentos ou as condições climáticas adversas  apenas esconde a relação que os reservatórios hídricos vazios guardam com o processo de degradação das terras nas mais importantes bacias hidrográficas do país. Justificar a crise com base no baixo volume de água armazenado mostra ainda a falta de conhecimento e de comprometimento para com o conhecimento existente sobre as características dos solos tropicais e subtropicais.  Desconhece-se assim a capacidade de armazenamento de água de nossos aquíferos, que dependem diretamente da capacidade infiltração de água das chuvas nos solos, característica própria dos latossolos, que dominam a paisagem brasileira, em especial nas zonas de recarga dos aquíferos (Freitas, 2001).

A nível mundial, estimativas da FAO indicam uma perda de 24 bilhões de toneladas de solo por erosão.  Considerando a camada de 15 a 20 cm, como aquela mais valiosa para a produção, a quantidade de solo perdida anualmente para os fundos de rios e de mares equivale a algo como 7 a 9 milhões de ha de solos degradados e improdutivos.  Temos assim que a cada 6 anos saem de produção em todo o planeta uma quantidade de hectares igual a área cultivada no Brasil.  O reflexo dessa degradação é um inexorável ciclo de pobreza que deve ser evitado, promovendo a sua imediata reversão para um ciclo de prosperidade, marcado pelo crescimento econômico sustentável do agronegócio brasileiro (Saturnino & Landers, 1997).

O uso não planejado das terras, o manejo inadequado dos solos, a adoção de sistemas importados de cultivo e o desmatamento desenfreado de áreas de recarga, áreas impróprias (solos de baixa aptidão agrícola) e de matas ciliares têm provocado a degradação dos recursos naturais – essa sim, uma responsável extremamente importante, porém oculta da crise na produção de energia. Tais práticas, ao tornar o solo menos permeável, acabam impedindo que este exerça o seu papel natural de estoque e  filtro da água. O excedente, ao escoar com maior velocidade pela superfície do solo, termina por carrear bilhões de toneladas de terra para rios e lagoas, resultando no assoreamento - ou “entupimento” - dos reservatórios de água para abastecimento humano, agricultura e geração de energia hidrelétrica. Com isto, perdemos também o estoque de água que abastece os rios nas épocas de escassez de chuvas. Além de menos água para beber e para gerar energia, agora também sofremos com enchentes violentas, quando das fortes chuvas de verão (Coutinho, 2001).

Felizmente, existem formas alternativas de manejo agrícola dos solos tropicais, que reduzem ao mínimo a degradação das terras.  Assim, o uso de sistemas conservacionistas baseados no Sistema Plantio Direto (SPD), ao aliar a maior captação de água das chuvas com a uma sensível redução da evaporação do solo, permite que tenhamos uma quantidade expressiva de milímetros disponíveis, que se traduzem no aumento da produção agrícola, na diminuição das perdas de solo e de água por erosão. Precisamos porém avançar ainda mais, incrementando a biodiversidade de nossos sistemas de produção através da diversificação de culturas agropecuárias,  recuperação das áreas de proteção permanente,  principalmente das matas ciliares, topos de morros e encostas íngremes. 

Neste sentido, em áreas de Mata Atlântica avançam as iniciativas de implantação de sistemas agroflorestais, onde o produtor recebe renda da produção agrícola ao mesmo tempo em que recupera a cobertura florestal. Já no SPD o foco é no uso de um complexo integrado de processos que visam melhorar as condições ambientais para explorar da melhor forma possível o potencial genético de produção das culturas, que são pautados em três requisitos mínimos:  i) revolvimento do solo restrito a linha de plantio; ii) a diversificação de espécies pela rotação de culturas; e, iii) a manutenção de resíduos vegetais com o uso de culturas especificas para formação de palhada (proteção do solo contra sol, chuva e ventos, conservando água) (Plataforma Plantio Direto, 2000)

Associado a outras práticas conservacionistas, o SPD é visto como um sistema que permite a recuperação efetiva e duradoura de áreas degradadas por erosões crônicas, onde por anos imperaram pastagens malconduzidas ou lavouras cultivadas com os métodos de preparo convencional.  Nesse caso, aparece o tema da integração entre as atividades agrícola e pecuária, o qual permite o máximo aproveitamento dos benefícios das culturas anuais e das pastagens.  A universalidade da aplicação da Integração Lavoura-Pecuára (ILP) tem aberto novas perspectivas para a pecuária de corte brasileira, reconhecidamente extrativista (baixo desfrute, estreita margem de renda, etc.) e para a pecuária de leite (Lara Cabezas & Freitas, 2000)

Ao lado do significativo aumento da produtividade física das culturas, SPD e ILP proporcionam a maximização da produtividade de insumos e de mão de obra.  Associa-se a isto a diminuição significativa de consumo de petróleo (60 a 70 %  menos óleo diesel), o aumento do sequestro de carbono (aumento do estoque no solo e da matéria orgânica em decomposição na superfície), a diminuição expressiva da perda de solo por erosão (90 % de diminuição nas perdas – considerando-se a relação 10 t solo / t de grão produzida), as quais evidenciam a possibilidade de se obter uma agricultura sustentável e limpa, produzindo alimentos saudáveis, com impacto positivo sobre o meio ambiente e a vida do homem e, em especial, “gerando” água e ar limpos. Por suas reconhecidas características, comprovadas amplamente pela pesquisa agropecuária brasileira, o SPD é a mais importante ação ambiental brasileira em atendimento as recomendações da conferencia da ONU (RIO-92) e da Agenda 21 brasileira, indo de encontro aos termos acordados no Protocolo Verde, e em especial ao conceito de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (CDM).

Assim, a reversão do processo de degradação das terras e a consequente garantia de que as águas das chuvas não mais serão perdidas rapidamente através de escorrimento superficial, dependem de uma   difusão mais eficiente  de tecnologias que visem o uso sustentável das terras, de incentivos governamentais que assegurem a adoção destas  pelos produtores, e de planejamento participativo do uso das terras nas bacias hidrográficas. A inserção dos produtores e proprietários rurais no processo decisório é fundamental para o sucesso de qualquer iniciativa que envolva alteração nos modelos de utilização das terras. Somente com o engajamento de toda a sociedade, urbana e rural, conseguiremos vencer a batalha do racionamento e sair dela não só com maiores aportes de recursos para a expansão do nosso sistema de geração e distribuição de energia, mas também com uma proposta de gestão do uso da terra que leve à recuperação da quantidade e qualidade de nossos recursos hídricos.

 

Referências Bibliográficas

COUTINHO, H. L. da C.  A degradação das terras e a crise energética.  TERRA, Rio de Janeiro, ano 11, n. 2, maio/agosto, 2001,  pp. 4

FREITAS, P.L. de.  Sistemas conservacionistas, baseados no plantio direto e na integração lavoura-pecuária, como instrumentos efetivos de manejo e conservação do solo, da água, do ar e da biodiversidade.  In: REUNIÃO TÉCNICA DE MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA, Brasília, ANA, setembro, 2001.

LARA-CABEZAS, W. A. R.; FREITAS, P. L. de (Editores). Plantio Direto na Integração Lavoura-Pecuária).  Uberlândia, UFU/ICIAG e APDC, 2000.  282 p., il.

PLATAFORMA PLANTIO DIRETO.  Sistema Plantio Direto.  Disponibilizada em 13.4.2000 http://www.embrapa.br/plantiodireto/IntroducaoHistorico/sistemaPlan....  2000b.

PHILLIPS, S.H.; YOUNG JR., H.M.  No-tillage farming.  Kentucky, USA. 1973 

SATURNINO, H. M.; LANDERS, J. N.  O Meio Ambiente e o Plantio Direto.  Goiânia: APDC, 1997. 116 p.

Exibições: 440

Comentar

Você precisa ser um membro de Rede Agronomia para adicionar comentários!

Entrar em Rede Agronomia

Comentário de José Leonel Rocha Lima em 21 junho 2015 às 16:16

Excelente artigo!!!

Super oportuno.

Publicado em 2001!!!

Passados 15 anos estamos colhendo o que foi alertado!!!

© 2020   Criado por Gilberto Fugimoto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço