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A RESPONSABILIDADE DO HOMEM NO PLANETA CRIADO POR DEUS

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A RESPONSABILIDADE DO HOMEM NO PLANETA CRIADO POR DEUS[i]

A terra é um planeta banhado pela luz e calor do sol.  Entre os planetas que giram ao redor dessa estrela, o nosso é dotado de uma combinação de condições tênues, capazes de gerar e sustentar o milagre da vida.  E que riqueza e variedade de vida existe nesse planeta – milhões de tipos de criaturas, únicos em forma e função, em um desempenho dinâmico detalhado, como músicos em uma enorme orquestra filarmônica.  Plantas e animais, juntos, coexistem competindo e cooperando em uma comunidade bastante estável.  Isto foi verdade até o momento em que um recente intruso chamado homem promoveu uma anomalia na harmonia pluralística da natureza.  Como pode uma espécie ganhar tal dominância sobre tantas outras e mesmo sobre outros processos que controlam a vida?.  Como podem os membros dessa sábia espécie falhar tão completamente e por tanto tempo em perceber as terríveis consequências de seu desastroso exercício de dominância?

Na bíblia sagrada encontramos dois relatos diferentes da criação, que podem explicar o papel da humanidade para a vida no planeta terra.  Em Gênesis 1:26-29 lemos que Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e todos os animais selvagens e todos os répteis que se arrastam sobre a terra”.  Deus abençoou o homem e a mulher e falou-lhes:  “sede fecundos e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra! Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre tudo que vive e se move sobre a terra. Eis que vos dou toda erva de semente, que existe sobre toda a face da terra, e toda arvore que produz fruto com semente, para vos servirem de alimento”.  Podemos interpretar isto como uma ordem divina de dominar a terra e usar tudo que nela existe para o propósito do ser humano.  No entanto, no segundo capítulo do Gênesis a injunção ao homem é descrita diferentemente:  “No dia em que o Senhor Deus fez a terra e o céu, ainda não havia nenhum arbusto do campo sobre a terra e a vegetação ainda não tinha brotado, porque o Senhor Deus ainda não fizera chover sobre a terra nem havia homem para cultivar o solo, extrair os mananciais da terra e irrigar a superfície do solo.  Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe as narinas o sopro da vida e o homem se tornou ser vivo” [Gn 2:5-7].  Depois de plantar o Jardim de Éden e ali por o homem, temos a afirmação crucial: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e guardar” [Gn 2:15].  Ao homem não foi dada licença para reger sobre o ambiente e usa-lo para seu propósito apenas, mas, ao contrário, a ele é dada a divina responsabilidade de alimentar e proteger a criação de Deus. 

Da interpretação dos escritos sagrados temos duas percepções opostas:  a primeira é antropocêntrica, onde o homem está acima da natureza, a qual foi criada para sua gratificação.  A segunda é mais modesta e realista:  o homem foi feito do pó da terra e a ele dado um “espírito vivo”, sem qualquer menção a ele como sendo “a imagem de Deus”.  O homem não é colocado acima da natureza nem o planeta terra é sua propriedade.  Ao contrário, a ele é dada a responsabilidade de gerenciar a natureza.  Trata-se pois de uma visão de acordo com o princípio ecológico moderno pelo qual a vida de todas as espécies se baseia na integração com a natureza e não no afastamento dela.  Por gerações, uma posição arrogante e narcisista baseada na primeira visão bíblica tem prevalecido, sendo a justificativa e razão religiosa para a exploração desenfreada do ambiente.  A questão agora é saber se aprendemos nossa lição e estamos prontos para, ao menos, aceitar a sempre ignorada segunda visão de nosso papel em relação à natureza.  O respeito espiritual a terra é talvez o elemento mais antigo e universal, encontrado em todas as religiões e credos em todos os tempos. 

Terra é o substrato material da vida e a água é literalmente sua essência uma vez que água é vida.  Uma fonte de água que borbulha do chão parece estar realmente viva.  Qualquer pessoa pode facilmente perceber por que ela tem sempre inspirado associações divinas.      

Entender e estudar o funcionamento do solo e da água na biosfera e como esses recursos naturais podem ser bem ou mal manejados é muito mais uma necessidade do que uma curiosidade científica.  Através da história de civilização, a pressão do crescimento populacional conduz à exploração descuidada dos valiosos recursos solo e água e, em algumas vezes, à sua rápida destruição.  Observadores descuidados da historia podem atribuir a derrota de um império a decadência moral, ao enfraquecimento cultural, ao envenenamento ou a perda de capacidade militar, quando, na verdade, a verdadeira e mais importante causa foi o abuso e a degradação de recursos vitais como o solo e a água.

Existe hoje uma razão clara e urgente para estarmos preocupados com a adequação dos recursos solo e água para satisfazer as demandar de nossa prospera civilização.  Nossa preocupação não deve ser somente a disponibilidade desses recursos mas principalmente sua qualidade.  Atividades urbanas e industriais, junto com a aplicação de técnicas modernas “eficientes” de agricultura, construção, mineração e de deposito de rejeitos exercem uma pressão crescente sobre a oferta de recursos limitados como solo sadio e água de boa qualidade.

São necessários milhares de anos para formar um solo e o homem pode destruí-lo em poucas décadas ou em anos.  Assim, na escala de tempo de vida de um ser humano, solo não pode ser considerado um recurso renovável, a exemplo de uma floresta, um rio, um lago ou um aquífero.  Esses recursos não pertencem somente aqueles que são considerados proprietários nesse momento, mas também e principalmente às futuras gerações.  Solo e água pertencem à biosfera, à ordem da natureza.  Como uma espécie entre muitas outras espécies e como uma geração entre outras gerações que virão, não temos o direito de destruí-los.

Talvez o nosso mais precioso e vital recurso seja tão frequentemente encontrado sob nossos pés que sequer notemos sua presença e sua importância chegando, algumas vezes, a chamá-lo de sujeira, pó ou poeira.  De fato, o recurso solo é a base de toda vida terrestre e o meio purificador onde resíduos são decompostos e reciclados e onde vida é regenerada e por isto, nesse dia e em todos os dias que virão deve ser conservado.



[i] O texto constitui uma tradução livre, baseado no livro do Professor Daniel Hillel intitulado  “Out of the earth: civilization and the life of the soil”, publicado em 1991 (Berkeley, Los Angeles, Univ. of Califórnia Press, 321 p.).  O autor nasceu em um oásis feito pelo homem no semideserto do sul da Califórnia nos EUA.  Foi levado ainda novo para a Palestina onde viveu parte da infância em um assentamento pioneiro no Vale Jezrell.  Lá, em uma terra degradada e inóspita, aprendeu, segundo seus depoimentos, a amar a terra e seus contrastes, certamente pela sinfonia ambiental com seus contrapontos entre céu e terra, solo e água, plantas e animais, selva e agricultura.  A fascinação precoce com solo e água aumentou por décadas para se tornar vocação e passatempo, uma carreira profissional e um trabalho de amor.  Depois de concluir o curso de graduação em agronomia e ciências da terra nos Estados Unidos da América e prestado serviços para a Secretaria de Agricultura daquele país (USDA), retornou para Israel onde participou do levantamento sistemático dos recursos solo e água e dos esforços em restaurar produtividade nas terras áridas.  Foi diretor da Divisão de Tecnologia do Solo na Organização estatal de pesquisa em agricultura e depois chefe do Departamento de Ciências de Solo e Água da Hebrew University.  Prof. Hillel teve a oportunidade de observar o manejo e o mau manejo da terra e da água em diferentes condições e realidades pedo-climáticas.  Seus trabalhos de pesquisa, consultoria e assessoria diretiva, assim  como suas viagens, permitiram-lhe adquirir uma perspectiva global no que tange aos dois maiores dilemas que atacam o mundo em nosso tempo: a ocorrência da fome afetando diferentes nações e a evidente deterioração do ambiente afetando todas as nações.  Baseado em sua experiência, acredita que qualquer controle do impacto do homem sobre o ambiente  deve ser baseado na compreensão fundamental dos processos envolvidos, ou seja, não se pode proteger o que não se conhece.  Como um cientista ambientalista escolheu dar atenção aos recursos naturais da terra e da água e para os processos físicos-biológicos – natural e antropogênicos – que os governam.  Prof. Hillel se considera um naturalista que suporta o desenvolvimento, desde que criterioso e ambientalmente aceitável, o que torna seus escritos relevantes para os nossos dias. 

FOTO:  Grupo do Teatro Universitário Luiz de Queiroz - TULQ - formado por alunos da ESALQ/USP em montagem da peça de Millor Fernandes "O homem do Princípio ao Fim" com direção de Silvio de Abreu (1972/73)

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