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A tendência da agricultura no Centro-Oeste está no sistema plantio direto e no uso de braquiárias - publicado em 1998

CERRADOS - a natureza agradece(1)

 “A tendência da agricultura no Centro-Oeste está, sem dúvida, no sistema de plantio direto e no uso de braquiarias para cobertura”

Mais do que uma técnica, o plantio direto na palha vem se tornando uma verdadeira filosofia de vida para o Centro-Oeste brasileiro, que tem no desenvolvimento de uma agricultura sustentável seu mais importante objetivo. Aliar produtividade a técnicas que permitam a exploração racional do solo é apenas um aspecto do sistema, que depende fundamentalmente da reestruturação da maneira de pensar do produtor, na medida em que isso representa a manutenção da capacidade produtiva da terra.

As vantagens são muitas. O plantio direto elimina a erosão; minimiza a necessidade de replantio e as perdas de insumos pela enxurrada; reduz a temperatura do solo, proporcionando maior crescimento de raízes, maior atividade biológica e uma melhor fixação de nitrogênio, no caso de leguminosas. Permite ainda a eliminação das operações de preparo do solo, aumentando o tempo de plantio, simplificando o gerenciamento em épocas mais críticas e reduzindo os custos de produção; melhora a fertilidade do solo proporciona a reciclagem de nutrientes; diminui a lixiviação; favorece a decomposição aeróbica e a liberação de nutrientes em quantidades homeopáticas; entre outros.

Falar atualmente da produção de grãos na região é falar do sistema. Trazido por agricultores vindos do Sul do país, onde o sistema foi introduzido há 27 anos, o plantio direto cresce rapidamente, ocupando cerca de 3 milhões de hectares na região, o que corresponde de 20 a 25% da área agricultável dos Cerrados.  Em determinadas áreas, por exemplo, a técnica, de tão difundida, é considerada sistema convencional.

Por trás desse desenvolvimento há uma estrutura eficiente, formada por entidades, como a Associação de Plantio Direto no Cerrado (APDC), a Embrapa, o Clube Amigos da Terra (CAT) e as Fundações MS e MT, que, dia a dia, lutam para difundir, melhorar e adequar a técnica às condições de solo e clima do Centro-Oeste e da região dos Cerrados.

As conquistas obtidas nesses campos tornam possível o avanço global do sistema, haja vista o significativo crescimento em culturas anuais como soja (mais de 50% da área plantada), milho, arroz, feijão, café e, mais recentemente, algodão.

Nas áreas de pecuária, onde as pastagens encontram-se degradadas, a integração com a lavoura, via plantio direto, tem permitido a recuperação do solo, além de garantir maior renda ao produtor, que passa a ganhar também com a atividade agrícola.

O sistema, entretanto, não se limita a grandes lavouras e às áreas de pecuária. Pequenos agricultores usam máquinas específicas com tração animal ou pequenas plantadeiras mecanizadas em suas terras para o cultivo de culturas anuais. A técnica também vem sendo usada para reflorestamentos, através do plantio direto de mudas em covas, a exemplo das experiências no Sul do país.

O uso de gramíneas (sorgo, milheto, milho, etc) como adubo verde e/ou cultura de cobertura viabiliza a técnica. De uma forma comum, todas essas experiências se aproveitam da eficiente cobertura proporcionada pela braquiária, que consegue fixar e disponibilizar o silício para as culturas subseqüentes, gerando proteção contra o ataque de pragas e doenças. As braquiárias provocam um equilíbrio de nutrientes, difícil de ser obtido artificialmente com adubos químicos.

No entanto, é importante ressaltar que não são todas as  braquiárias que podem ser utilizadas, mas principalmente a B. ruziziensis, B. brizantha e o capim marmelada (B. plantaginea). "A tendência da agricultura no Centro-Oeste está, sem dúvida, no sistema de plantio direto e no uso de braquiárias como planta de cobertura para formação de palhada", explica Pedro Freitas, agrônomo da Embrapa Solos e da APDC.

A importância da cobertura

Superados obstáculos como o controle de ervas daninhas e o uso do maquinário, o principal desafio para quem trabalha com o sistema passa a ser a cobertura do solo. A utilização de gramíneas no período de safrinha tem solucionado em parte esse problema com o uso de milho, sorgo e milheto. Mas não é uma solução a longo prazo. "Precisamos de gramíneas que cubram o solo durante todo o inverno e, precisamos de culturas de outras famílias, incluindo leguminosas, que permitam a rotação de culturas na sua definição mais plena.  O ideal em uma rotação milho-soja é que tenhamos a rotação: milho – gramínea – soja – leguminosa.”, diz Freitas.

"O milheto (gramínea)" – continua – "tem sido uma alternativa viável, pela baixa exigência hídrica. No entanto, temos que viabilizar outras espécies, incluindo as braquiárias. No caso de leguminosas e outras famílias, já temos alguns materiais sendo testados, como o guandu e a crotalaria (leguminosas), o niger, o amarantus, entre outros".

A região dos Cerrados, que abrange, além do Centro-Oeste, parte dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Tocantins, Pará, Piauí, Maranhão, Roraima, Rondônia e Amapá, enfrenta problemas com a heterogeneidade climática. Enquanto algumas áreas têm uma distribuição de chuvas que possibilita o crescimento de uma segunda cultura (safrinha), outras não. É, então que surge a necessidade de buscar espécies mais adaptadas ao caso de cada região.

Entra em cena então o trabalho da pesquisa. Iniciadas na década de 70, as experiências buscam atualmente, além da seleção de espécies para cobertura do solo, o desenvolvimento de sistemas de rotação e sucessão de lavouras capazes de melhorar a produção de grãos e a proteção do solo através da formação de palha por culturas específicas para este fim.

De acordo com o pesquisador da Embrapa/Agropecuária Oeste, de Dourados (MS), Júlio Cesar Salton, uma das missões da pesquisa é encontrar alternativas que possam oferecer ao produtor rural vantagens econômicas. "No momento, os esforços concentram-se em estudos relativos à adubção e fertilidade da terra, procurando-se adaptar os conhecimentos existentes sobre matéria orgânica, estrutura do solo, acúmulo de nutrientes na superfície e sua reciclagem, além da interpretação de análises químicas", diz Salton.

A contribuição da Embrapa, que começa com a própria validação do plantio direto, demonstrando sua eficiência no controle da erosão, redução de perdas de água e nutrientes, passa ainda pela avaliação do desempenho de máquinas semeadoras e pulverizadores, e chega aos dias de hoje com a idéia de ser o plantio direto o seu principal negócio.

Diferênças de tecnologia

Do ponto de vista conceitual, não há diferenças entre a técnica empregada no Sul e Centro-Oeste brasileiro, exceto pelo fato de os solos dos cerrados apresentarem baixa fertilidade natural e acidez, o que torna necessária a construção de uma base mínima de fertilidade para viabilizar o plantio direto.

As distinções mais significativas ficam por conta das espécies utilizadas e da época de semeadura, em função das condições de clima e solo. No Sul, as chuvas são bem distribuídas ao longo do ano e o inverno é mais rigoroso, o que favorece o desenvolvimento de uma série de gramíneas e leguminosas, facilitando a formação da palhada. Já no Centro-Oeste, o período chuvoso começa no fim de setembro e pode ir até o início de maio, causando algumas dificuldades na obtenção da palhada e, conseqüentemente, restrição de alternativas. Devido à baixa produção de palha no inverno e sua rápida decomposição na primavera, ocorre o surgimento de ervas daninhas momentos antes do plantio da soja ou milho e, com isto, alguns produtores tem em sua propriedade um custo de manejo diferenciado. Em termos de produtividade, no entanto, os resultados são semelhantes nas duas regiões, dependendo exclusivamente do nível de cada produtor.

Técnica em expansão

Os municípios de Rio Verde (GO) e Maracaju (MS) são conhecidos como as capitais do plantio direto em seus estados. Na cidade goiana, cerca de 85% de toda a área agricultável utilizam o sistema, taxa que nos próximos anos deverá chegar a 100%. Em 1993, a técnica era usada em 3 mil hectares. Na safra 97/98, dos 230 mil hectares de soja e milho cultivados na região, 185 mil hectares já empregavam o plantio direto.

Flávio Faedo, da Associação dos Produtores de Grãos (APG) e Luiz Roberto Brucelli, da CAT de Rio Verde, afirmam (em uníssono) que os resultados são fruto da união dos agricultores, dos pioneiros do Sul (Herbert Bartz, Frankie Dijkstra e Manoel Henrique Pereira) e do trabalho desenvolvido pelo Clube Amigos da Terra na divulgação das práticas conservacionistas.

Em Maracaju, a história não é muito diferente. O município possui uma área total de 520 mil ha, com 50% das pastagens em diferentes fases de degradação e com uma lotação média de 1 UA/ha. A área agrícola, que já foi de 160 mil ha, no final da década de 80, atualmente está em 90 mil ha, com perspectivas de expansão contínua nos próximos anos.

Integração Tecnológica

Segundo Carlos Pitol, da Fundação MS, Maracaju ganha papel de destaque na história do plantio direto no cerrado por ser um núcleo de desenvolvimento de tecnologias. Em razão disto, estima-se que o índice de adoção da técnica na localidade seja superior a 80% da área agrícola, enquanto a média no estado é de 35%. "Além de que" - ressalta Pitol - "há um contínuo trabalho para a evolução do sistema nas propriedades, fazendo com que algumas delas apresentem um plantio direto altamente avançado com níveis de produtividades excelentes. O sistema representa o caminho da sustentabilidade da agricultura na região, seja no aspecto econômico, ambiental e social; este é um fato cada vez mais visível e inquestionável", conclui.

Boa parte do sucesso do plantio direto nos cerrados está intimamente ligada ao trabalho desempenhado por entidades do setor, que constituem um exemplo da integração tecnológica em torno do sistema, envolvendo organismos públicos e privados e mobilizando os interessados no seu desenvolvimento e sua difusão.

Outra forma de transmissão de informações é a divulgação boca a boca entre produtores.  "Um pequeno grupo de agricultores, sejam dois, três, ou mais, se reúne em um grupo e começam a trocar experiências. O contato direto agricultor-agricultor é a forma mais eficiente de difusão de tecnologia, porque os agricultores dividem seus sucessos e também seus insucessos. Desse modo, todos avançam rapidamente, apesar de o setor agrícola brasileiro ser uma atividade de alto risco e do agricultor ser (talvez por isso) bastante resistente a mudanças", diz Pedro Freitas.

A diferença, nesse caso, porém, é que o produtor não encontra técnicos ou mão-de-obra especializada e treinada. Na opinião de Freitas, para contornar esse problema é preciso investir em treinamento; seja de técnicos extensionistas (Emateres), de assistência técnica (iniciativa privada, empresas, indústria, comércio local, entre outros), dos próprios agricultores e de seus empregados.

Formação de parcerias é vital

Somente a parceria entre agricultores e técnicos pode mostrar que a viabilidade da agricultura na região depende do plantio direto, dada a fragilidade do ecossistema do cerrado. "Hoje, os agricultores que conseguem de alguma forma sobreviver à conjuntura de preços e à política agrícola imposta são aqueles que adotaram o plantio direto e buscaram o profissionalismo em sua atividade. Viabilizar a agricultura na região dos Cerrados é fundamental para a economia do país. O potencial da região é de produzir mais de 150 milhões de toneladas de grãos, o dobro da produção nacional de grãos atualmente. O resultado desse trabalho é um salto qualitativo na agricultura brasileira, praticando-se uma harmônica interação entre o homem e a natureza, através de uma tecnologia que viabiliza uma equilibrada exploração econômica", salienta o agrônomo.

O Centro-Oeste tem solos de novas fronteiras, que além de serem fracos, possuem um alto custo de correção. Para que se tornem produtivos é necessário fazer investimentos iniciais para corrigir as deficiências. Nesse sentido, a disponibilidade de recursos financeiros com juros aceitáveis é a necessidade do momento.

Produtores mais conscientes

Todavia, de acordo com José Roberto Brucelli, as dificuldades técnicas não são tão grandes quanto os empecilhos enfrentados para descompactar o cérebro de alguns agricultores, na tentativa de mudar uma cultura imediatista reinante. "Para que isso aconteça, não podemos matar a terra. Temos que entender o que acontece dentro do solo, saber que lá também existe vida e que os microrganismos são nossos aliados. Se lavrarmos o solo, e o expusermos a altas temperaturas, os microrganismos morrerão, e o solo se transformará em deserto, e dessa forma, nossos netos não sobreviverão", explica.

Ainda segundo Brucelli, uma da missões do CAT é o trabalho de conscientização da sociedade urbana rural. "Hoje" – diz ele – "a região já tem ciência do que o plantio direto representa para o Brasil em termos de conservação ambiental".

Já as Fundações, na opinião de Carlos Pitol, por estarem voltadas à pesquisa e à difusão de tecnologias agropecuárias têm se mostrado a melhor forma para a evolução, não só para a região como para toda a agricultura brasileira, solucionando em grande parte a dificuldade de levar informação ao homem do campo, de uma forma que esta seja absorvida com o mínimo de distorções.

Futuro – As perspectivas indicam que nos próximos anos o Sistema Plantio Direto será a forma de cultivo predominante na região e todas as práticas e pesquisas deverão estar adaptadas a esta realidade.

"O plantio direto representa para a região dos cerrados o equilíbrio entre homem e natureza, com o solo coberto o ano todo; não temos tempestades eólicas, o solo não é carregado pelas chuvas torrenciais, a infiltração é mais racional, conservando as nascentes na época da seca, os leitos dos rios não são assoreados, a fauna é preservada porque não temos as grades trabalhando na época das ninhadas, a reserva legal aumentou para 100% e o homem preserva seu maior patrimônio, a Terra. A natureza agradece", completa Brucelli.

(1) Revista Manchete Rural (Empresas Bloch, Rio de Janeiro, RJ). Ano 11, setembro de 1998.    Páginas 75 a 82.

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Comentário de Antônio Carlos Coutinho em 17 julho 2015 às 18:56

Eu acredito muito no Sistema de Plantio Direto na áreas irrigadas, principalmente por Pivô Central!

Durante a minha vida profissional, não vi muito irrigante com Pivô Central adotando essa prática!

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