Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Ataques sem fundamentação à aviação agrícola colocam em risco a agricultura brasileira

Por Ulisses R. Antuniassi; Professor Titular do Departamento de Engenharia Rural da Faculdade de Ciências Agronômicas UNESP – Campus de Botucatu/SP; Escreveu o artigo a convite do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS)

A prática da aviação agrícola tem sido fundamental na manutenção da competitividade brasileira na produção de alimentos, pois é econômica, eficiente e permite o menor uso de defensivos. Entretanto, setores da sociedade urbana têm criticado essa operação, inclusive com sugestões de seu banimento. Entre mitos e estereótipos, alguns tem apresentado uma visão distorcida do cotidiano da aviação agrícola, posicionando esta ferramenta de trabalho como um mal que deve ser combatido a qualquer custo.

Há constante menção à propalada “proibição” das aplicações aéreas na Europa, de modo que havendo a tal “proibição” na Europa, infere-se que o mesmo deveria ser feito no Brasil. Ora, é de fundamental importância o entendimento de que na Europa não há condições técnicas para o uso da aplicação aérea em larga escala, seja pela estrutura fundiária (pequenas propriedades) ou pela intensa urbanização das zonas rurais, o que impede que as aplicações sejam feitas com total respeito às faixas de segurança que impedem a contaminação de áreas vizinhas às aplicações. Em suma, na Europa as aplicações aéreas não são realizadas primariamente por que não são tecnicamente viáveis naquela região. Por outro lado, não é dada ciência à opinião pública de que a aplicação aérea é prática comum, utilizada de maneira consciente, responsável e segura em diversos países onde a estrutura fundiária a torna viável, como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e Brasil, sendo estes os grandes celeiros que alimentam a crescente população mundial.

É interessante ressaltar que, geralmente se dá amplo destaque a opiniões de técnicos e cientistas de segmentos não associados à produção agrícola, ou agronomia, e que não estão de maneira alguma em sintonia com a ciência agrícola. Assim, opiniões sem embasamento técnico-científico ou pior, baseadas em falsa ciência, sobre a aviação agrícola e as aplicações aéreas de produtos são propaladas como verdades absolutas. É interessante um paralelo com a Dengue e H1N1, situação que, sempre, são consultados e entrevistados médicos. Porque não ocorre o mesmo (no caso agrônomos e universidades agrícolas) quando se trata de produtos para agricultura?

Neste contexto, é importante reforçar que a aviação agrícola é uma ferramenta indispensável para a produção de alimentos, fibras e energia, notadamente nas cadeias produtivas relacionadas às principais culturas que dão suporte ao PIB brasileiro, como a soja, a cana-de-açúcar, o algodão, o milho, o arroz e a citricultura, além de outras frutíferas. A aviação agrícola no Brasil é responsável por 25 % do total de aplicações realizadas, correspondendo a mais de 70 milhões de hectares aplicados ao ano no país. Esta média considera o conjunto das principais culturas que se utilizam das aplicações aéreas, mas o percentual de participação da aplicação aérea varia significativamente de acordo com a cultura em questão. O maior percentual de participação ocorre na cultura do algodão, com 35,7% das aplicações por via aérea. Outra participação importante se dá na cultura do arroz, onde um terço das aplicações (33,3%) são de responsabilidade da aviação agrícola. No que se refere à quantidade de área tratada, a cultura da soja é a mais significativa, representando 41 milhões de hectares tratados por via aérea anualmente, totalizando 56,8% da área aplicada anualmente pela aviação agrícola brasileira. Há situações onde simplesmente não há outras opções para a realização dos tratamentos fitossanitários.

Por fim, é importante ressaltar que a aviação agrícola é usada dentro de preceitos, regras e restrições aceitas mundialmente. Se a regulamentação não for seguida, como em diversos outros setores, podem ocorrer problemas. Nestes casos, certamente a responsabilidade há que ser apurada, e se for caso, providências legais devem ser tomadas.

Sobre o CCAS

O Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo-SP, com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos concretos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, apesar da sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas, não condizentes com a realidade. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. Mais informações no website: http://agriculturasustentavel.org.br/. Acompanhe também o CCAS no Facebook: http://www.facebook.com/agriculturasustentavel

Exibições: 213

Comentar

Você precisa ser um membro de Rede Agronomia para adicionar comentários!

Entrar em Rede Agronomia

Comentário de CARLOS ALBERTO DE CONTI em 5 abril 2016 às 0:22

Durante minha minha profissional no MAPA exerci, dentre outras funções, a de Responsável pela Área de Aviação Agrícola no âmbito da SFA/RJ, tarefa que exerci com muita facilidade em virtude de que só havia uma aeronave a fiscalizar e a atividade se resumia a apenas duas microrregiões em que se utilizou dessa ferramenta tecnológica: em uma fazenda com rizicultura situada à margem da BR 101 (na bacia do Rio Macaé), e em duas usinas de cana-de-açúcar: uma localizada na bacia da Lagoa Feia, outra na bacia do Rio Muriaé, ambas em Campos dos Goytacazes, todas devidamente mapeadas. Houve solicitações para serviços aero-agrícolas em outras empresas, mas à luz da legislação e do bom senso, indeferi os processos, exatamente porque os locais pretendidos ou eram muito próximos a povoamentos e escolas ou eram faixas entrecortadas por extensa malha de canais (na verdade a rede de drenagem construída pelo antigo DNOS) cuja malha hídrica secundária estava diretamente ligada à rede primária de canais, abrigando biota de valor ambiental inquestionável, inclusive peixes, além de que essas águas servirem de fonte para dessedentação de animais domésticos .e silvestres. A Aviação agrícola sempre foi e continuará sendo um tema delicado e complexo, que desperta posicionamentos apaixonados e contrários. Por isso, concordo com o comentário que ele deveria ser discutido por profissionais que entendem. Eu mesmo tinha uma posição diferente antes de fazer o Curso de Coordenador de Aviação Agrícola. Sempre defendo que a questão ambiental não tenha que vir a reboque da questão econômica; antes, deve nortear a cabeça de todo Responsável Técnico pelo projeto prévio que deve ser apresentado ao órgão fiscalizador (o MAPA), não se atendo apenas aos parâmetros técnicos obrigatórios: georreferenciamento das áreas pretendidas para as aplicações, condições atmosféricas predominantes barométrica, temperatura, UR); altura de vôo; direção e sentido do "tiro"; manobras da aeronave na aproximação e reaproximação ("balão"); localização, infra-estrutura e equipamentos presentes no campo de pouso, tanto por ocasião do próprio reabastecimento quanto nas operações de limpeza da aeronave após término do serviço); os agrotóxicos e/ou fertilizantes líquidos ou sólidos pretendidos: doses e dosagens; datas, horários de início e término das atividades; tipo de equipamento (aeronave,dispersores/difusores); largura das faixas de aplicação, tamanho médio das partículas;mapa das imediações da área pretendida: presença de escolas, aglomerações rurais, corpos d'água, cultivos e criação de animais, etc. Nossa legislação é boa, sem dúvida. Entretanto, todos nós Coordenadores de Aviação Agrícolas do MAPA, espalhados por esse imenso BRASIL, nos reuníamos uma vez por ano para discutirmos os pontos críticos observados em cada Unidade da Federação para, ao final do encontro, apresentarmos mudanças na legislação complementar com a finalidade de "aparar as arestas", diminuir os riscos inerentes da atividade, uniformizar critérios, etc. E sempre havia questionamento em estados como MT, que detém temperaturas elevadíssimas na primavera e verão, que apresentava relatórios dando conta que alguns pilotos voavam até 8 (oito) horas num só dia, o que tecnicamente era difícil de ser justificado, ainda que as operações começassem antes das 06:00 da manhã. Então, caríssimos colegas, nós sabíamos que os dados técnicos contidos nos relatórios omitiam dados verdadeiros, principalmente em termos de umidade relativa do ar e temperatura, ítens fundamentais a serem considerados na atividade. Como vêem, a atividade é muito importante sim; e é verdade que a quantidade de agrotóxicos aplicado por hectare com o emprego de aeronaves é inferior a todos os outros métodos terrestres de aplicação, mas não se iludam: no Brasil falta fiscalização de campo e sobram "fiscais" de relatórios de aplicação, alguns destes confeccionados por colegas agrônomos que sequer conhecem as áreas onde são realizadas as operações aero-agrícolas. Basta ver o número de empresas aero-agrícolas registradas nas SFA's do RS, SP, que realizam suas operações tanto em seus estados quanto operam em estados como MS, MT, GO, BA, TO, e o número de hectares contratados, comparativamente ao pequeno número de Coordenadores de Aviação Agrícola pertencentes ao MAPA. Sei que os colegas FFA fazem o que podem, mas estamos longe de conseguirmos dar conta dessa tarefa hercúlea. Respeitosamente, CACONTI.

Comentário de Eduardo B. Teixeira Mendes em 1 abril 2016 às 23:54

Infelizmente, como a discussão sobre agrotóxicos...... é mais fácil jogar para a galera do que consultar realmente profissionais da área, como nós engenheiros agrônomos.

Achei perfeito o trecho onde fez a comparação entre as reportagens sobre Dengue e H1N1 e as "reporcagens" que inúmeras vezes são feitas sobre a agropecuária, sem consultar profissionais da área.

Comentário de Adriana Maria Helena Suijkerbuij em 1 abril 2016 às 14:43

A aviação agrícola é de suma importância durante o ciclo das culturas. Não tem nem como comparar as lavouras europeias com as brasileiras, políticas diferentes, solos diferentes, culturas cultivadas diferentes, simplesmente tudo é diferente. Queira Deus que isso não venha a se concretizar, porque a aviação agrícola não só emprega muita gente como facilitou a vida no campo. Acho que tudo se trata de profissionais qualificados para atuar em qualquer área e, deviam conversar com pessoas qualificadas para efetivar essa idéia.

© 2019   Criado por Gilberto Fugimoto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço