Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Janilson Barros do Amaral¹

 

                 Naquela hora eu podia colocar um ovo de galinha na cabeça e esperar ele fritar. O calor do sol era tão grande que eu via as coisas balançando como se fossem ondas. Chuva era coisa do outro mundo naquelas terras de meu Deus. Só poeira; as árvores cinzentas, tudo seco. Seco, parado e morto.

– Os meninos mandaram notícias! – Era dessa forma que ela chamava os filhos.

– Boas notícias?

– As mesmas! Sem emprego, nada de trabalho. Mas se tivessem na roça estavam sofrendo também. Roça sem futuro é melhor por lá.

– Não sei como o governo quer segurar o povo na roça, se não dá condições. Não há dinheiro para nada, a seca acabando com tudo, não há trabalho; estudo para os filhos é fraco e difícil, não sei o que eles querem da gente. Ser escravo a vida toda. Tudo que o povo come sai do nosso trabalho, mas não dão valor. Entra ano e sai ano mais a coisa não muda.

– Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! – Ela gostava de dizer esses ditados. Não sei onde aprendeu.

                Um mundo morto! Saber que existem coisas bonitas no mundo: cidades grandes, conforto para dá aos filhos, e a gente aqui nesse lugar esquisito. Dentro dos matos. Quem já viu isso? Morar dentro dos matos. Sem água suficiente, sem energia, sem alimento suficiente para os filhos. Saber que tem muita gente desonesta gastando dinheiro à toa. Dinheiro nosso, pois pagamos impostos em tudo. Já me falaram isso na rua. É triste. E quando chega uma festa? Natal! Nem uma lembrança para dá a uma criança. Criança não quer saber se falta dinheiro. Quer ser feliz. Ganhar presente, comer bem, vestir roupa nova, estudar e brincar. Pois criança não deve trabalhar. E quando um adoece? É um Deus nos acuda! Não tem carro, não tem médico, não tem remédios. Não tem nada, pois pobre vive de nada. Quando morre é difícil. A morte já é triste imagine num lugar como esse. Já vi um morto deitado num banco de pau, pois nem cama tinha. Os pés amarrados com um cadarço de sapato velho, esperando o caixão que vinha da prefeitura. As velas existiam, pois são baratas. Tinham também algumas flores, pois elas vêm da terra, e terra a gente tem. É difícil! Saber que tem gente com tudo e outros sem nada, passando fome, nem uma comida tem para sustentar um filho. A gente só vê notícias ruins: Mortes, enchentes, secas, assaltos, seqüestros... E as saudades dos filhos, para aumentar mais as tristezas. Quando nasci era assim. Os filhos nasceram também e nada mudou. Assim foi e assim será. Meu Avô me contava histórias dessas coisas ruins. Cresci, criei filhos e tudo continua. Nada mudou.

– Está pensando em quê homem de Deus? – Mulher tira a gente do sério!

– Na vida! Pensando em coisas que não podemos dá jeito.

– Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! – Ela gostava de dizer esses ditados. Não sei onde aprendeu...

                Seria bom se todos vivessem da mesma forma. Todo mundo não devia ser igual? Porque uns sofrem tanto e outros não? Eu lembro que quando morei em São Paulo via pessoas muito ricas, e outros pobres, enriquecendo mais os ricos, trabalhando para eles ficarem mais ricos. E tem gente que fala que todo mundo é igual. Pode ser igual para Deus. Mas para os homens não. Todo mundo é desigual nesse mundo. Eu só fico com pena das crianças, pois são anjos de Deus. Mas nem mesmo Deus às vezes lembra delas.

– Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! – Repetiu ela. Mulher aprende cada ditado!

 

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¹Engenheiro Agrônomo, Técnico em Edificações, Professor e Escritor

E - mail: jbamaral@gmail.com               Blog: http://jbamaral.blogspot.com 

 

 

 

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