Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Engo. Agro. José Luiz Viana do Couto

joseluiz@cohidro.com.br

O artigo Melodia Verde, de Bolívar Torres, publicado em O Globo AMANHÃ, de terça-feira 28.1.2014, relatando as atividades de Bernie Krause – um músico que há décadas se dedica às paisagens sonoras e à acústica ecológica – me fez ir ao Google saber um pouco mais sobre essa fantástica atividade de Fiscal da Natureza. O que isso tem a ver com Agronomia ? Esse naturalista americano prova que a paisagem sonora de um ambiente tem muito a informar sobre a biodiversidade. Nosso país é líder mundial em APPs (áreas de preservação permanentes), mas nossos parques vivem às moscas e, mesmo se o seu administrador ganhasse na sena acumulada, não saberia como desenvolvê-lo. Mas, que tal ganhar dinheiro com turismo ecológico, promovendo o Bird watching (observação de pássaros) e a Soundscape Ecology (Ecologia Acústica) ?

Como mostra a figura que copiei do artigo Ecologia Acústica: a ciência do som da paisagem[1] da Universidade da Califórnia, estuda-se a sonoridade da Natureza ou da terra (geofonia), dos animais e de outros organismos vivos não humanos (biofonia) e do próprio homem (antropofonia). Quanto mais “musicais” e complexas forem as propriedades acústicas de um habitat, mais saudável ele será. Na figura, a Geofonia é representada pelo ruído da água entre as pedras de um riacho; a Biofonia pelo coachar de uma rã; e a Antropofonia pelo barulho do trânsito da localidade mais próxima.

Cada organismo possui uma assinatura acústica (ou sonora) própria e as gravações digitais nos ajudam a entender manifestações emocionais de certos animais. Assim como acontece com os organismos vivos, cada fonte não biológica (o vento, a água, o movimento da terra e da chuva) possui uma ressonância peculiar.

Esses arquivos sonoros têm a mesma função de uma imagem de satélite tirada de uma região da Amazônia, p.ex. Numa segunda imagem da mesma área, em outra ocasião, pode-se observar a falta de vegetação, o que denuncia o desmatamento. Aliás, em duas das figuras do artigo no jornal, Krause mostra justamente isso. Na 1ª., mostra as ondas sonoras de uma área de manejo florestal na Califórnia (EUA). Antes da extração de madeira, há uma densidade visível (similar à que mostramos aqui), que comprova a diversidade acústica do local. Na 2ª. figura, depois da extração (da madeira), destacam-se apenas duas linhas: um rio representado pela linha contínua no eixo horizontal, e um pica-pau pelas linhas verticais no centro do gráfico. Nada mais.  

A figura abaixo, da mesma fonte anterior, mostra um espectrograma de 11 segundos (som digital), gravado por Krause na Estação Biológica A Selva, na Costa Rica. Pássaros e insetos criam uma variedade de sons na faixa entre 1 e 12 quilohertz (kHz), representados por manchas coloridas sobre fundo preto. A figura mostra intensa atividade Biofônica entre 4 e 6 kHz, os mais intensos registrados logo no 1º. segundo de gravação. Grilos aparecem em 4.7, 5.6 e 6.0 kHz. Veja que gotas de chuva caindo das copas das árvores podem ser ouvidas (sons abaixo de 2 kHz), como exemplo de Geofonia.

Algumas frequências (kHz) relacionadas a animais e sons da Natureza são: chuva fina, 1; chuva forte, 8; sapos, 2 a 5; passarinhos, 2 a 6; insetos, 3 a 4 e 6 a 8 kHz.

E por falar em Ecologia, aqui vai uma dica que deduzi do Comitê de Bacias Hidrográficas de São Paulo. Quando se está estudando uma região e queremos estabelecer uma diretriz ecológica de um Município, utilizamos o seguinte critério, com base em sua densidade demográfica (DD):

  1. DD <= 50 hab/km² (Conservação)

  2. DD = 50 a 100 hab/km² (Agropecuária)

  3. DD = 100 a 200 hab/km² (Em industrialização)

  4. DD > 200 hab/km² (Industrializado)

Por esse critério, é claro que a Ecologia Acústica tem um maior campo de ação nos Municípios com menos de 50 habitantes por quilômetro quadrado e, mesmo assim, afastado da cidade.

Se quiser conferir, estude o assunto, compre um gravador, apure os sentidos e seja um fiscal da Natureza.

 

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Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 15 dezembro 2016 às 13:42

MONITORAMENTO ECOLÓGICO ACÚSTICO

Este tópico (Ecologia do Som) vai completar 3 anos. Estou formado há 50 anos e até a semana passada nunca tinha lido algo em Português sobre o assunto. O Globo publicou um artigo obre a gravação de sons numa reserva ecológica do Brasil feita por brasileiros, tendo como objetivo a preservação da fauna de porte médio (veados, etc.).

Num rápido passeio na Internet, ancorada pelo Google, fiquei sabendo hoje (lendo artigos em Inglês), que as tecnologias de gravação e reprodução acústicas foram usadas na detecção e monitoramento de insetos, desde os primórdios de 1900 e o estudo do seu comportamento acústico foi desenvolvido em uma das áreas proeminentes da Etologia de Insetos.

As armadilhas usando o som para atrair insetos foram relatadas pela primeira vez em 1949, em machos de Anopheles albinamus (mosquitos). População de machos de Aedes albopictus (também mosquito) foi reduzida em 76% quando atraída por alto-falante emitindo tons de 400 Hz, no centro de folhas de polietileno de cor preta tratadas com inseticida.

As armadilhas acústicas são usadas não apenas para atrair, capturar, esterilizar ou matar insetos mas, também, para coletar espécimes vivos para estudos biológicos: diversidade, níveis populacionais e distribuições geográficas, entre outras. O potencial para manejo de pragas é enorme.

Fico imaginando como seria bom se os órgãos de classe e universidades rurais estimulassem estudos dessa natureza, além do feijão-com-arroz de sempre.

Para terminar, um dos sites que visitei e que mostram o canto de algumas espécies de cigarra, grilos, mosquitos etc.

https://genent.cals.ncsu.edu/bug-bytes/communication/acoustic-commu...

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 5 outubro 2015 às 19:55

OBSERVAÇÃO DE PÁSSAROS

Eu, que vivo ao lado da maior floresta urbana do mundo, estou me interessando pelo assunto. Pedi a uma filha que mora nos States pra trazer um binóculos pra mim em Dezembro e mandei perguntar na fábrica do Espírito Santo o preço dos tais apitos ou pios.

Vamos nessa ?

P.S.

Antes de ir morar em NY essa minha filha morava nos Emirados Árabes. Estive lá por um mês e vi quantos pássaros (e passarinhos) tem em Abu Dhabi -- fruto do maior programa de reflorestamento do mundo. 

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 17 setembro 2015 às 15:45
Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 16 setembro 2015 às 17:46

A FÁBRICA DE PIOS

http://g1.globo.com/economia/pme/noticia/2015/09/familia-comanda-ha...

(Está aqui ao lado, no Espírito Santo)

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 2 fevereiro 2014 às 15:36

Obrigado, Gilberto.

Não apenas uma proposta de aproveitamento de APPs com turismo ecológico. Eu vislumbro também um novo campo da Ciência que pode ser explorado por colegas que ainda lutam por uma colocação de destaque no cenário brasileiro (em terra de cegos, quem tem um olho é rei). Ou uma especialização para os Analistas Ambientais do IBAMA, e mesmo de empresas de consultoria e fazedores de EIA/RIMA. O audioespectograma é a impressão digital de um passarinho (Cardinal do Norte), de variações de uma mesma espécie (retângulos na imagem central), e pode ser ouvido num programa gratuito (RAVEN) da Universidade de Cornell.

Um abraço.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 2 fevereiro 2014 às 14:54

José Luiz,

Excelente artigo.

Uma ótima proposta de aproveitamento de áreas de preservação com turismo!

abraços

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 2 fevereiro 2014 às 6:32

P.S.

Não deixe de ler, na íntegra, o arquivo (em inglês) que selecionei no rodapé do artigo.

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