Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Enchentes de verão. Ano após ano os noticiários das tvs mostram as sucessivas tragédias provocadas pelas águas dos rios e riachos distribuidos pelas várias regiões de nosso Brasil. Por morar em Campos dos Goytacazes vou me ater à enchente na bacia do Rio Paraíba do Sul, especialmente ao seu afluente da margem esquerda: o Rio Muriaé. Este nasce em Minas Gerais e desagua no Paraíba do Sul a 2 km do centro de Campos/RJ. A sede deste município é cortada pelo Paraíba do Sul e só não vem sendo invadida pelas suas águas porque na década de 70 o extinto DNOS construiu diques em ambas as margens. E na década de 90 a prefeitura desligou a rede de galerias pluviais que vertiam para o rio e encaminhou para o canal Campos-Macaé. Essa mudança impede o retorno das águas de drenagem quando o nível da água do rio Paraíba do Sul fica acima do nível dos terrenos e das ruas adjacentes. Quanto à área situada à margem esquerda do Rio Muriaé, existe a rodovia BR 456, cujo asfalto se situa altimetricamente bem acima da calha maior deste Rio e dá a falsa impressão de funcionar como uma estrada-dique.Mas infelizmente não funciona assim. Tanto que há quatro dias houve o rompimento da rodovia num trecho localizado no km 120, a cerca de 7 km a montante de Campos, provocando a inundação de Três Vendas, localidade onde residem cerca de 4000 pessoas. Questionado pela reportagem sobre possível falha na construção da citada rodovia federal, o chefe regional do DNIT esclareceu que a rodovia é projetada para suportar pressões verticais (de cima para baixo) e que não fora previsto suportar pressões laterais (frontais ou paralelas ao aterro da rodovia). Portanto, ela não exerce a dupla função: estrada e dique. Mas deveria sim, contemplar ambos os objetivos pois ela é a única estrutura física existente naquele local que de fato representa alguma barreira à passagem das águas em caso de enchentes. Não somos engenheiros civis mas aprendemos o bastante para saber que as pressões exercidas pela água sobre o talude dos maciços (de terra ou de pedras) que compõe o corpo da barragem, essas pressões são ortogonais às paredes. O talude externo pode ser construído quase na vertical, com inclinação de 30% ou menos, dependendo do material utilizado. Mas o talude interno, isto é, aquele que terá o contato direto com as águas, este talude deve ser construído com uma inclinação significativamente superior, da ordem de 67% a 80% ( considerando a projeção horizontal / vertical), dependendo do material utilizado. Desta forma, boa parte da força erosiva das águas é transformada automaticamente em força-peso, relembrando que a pressão se exerce sempre ortogonalmente à parede sobre a qual ela atua. Simples assim: quando mais proximo da horizontal for a inclinação do talude, tanto menor será a erosão pela simples decomposição da força: uma pequena porção dela será exercida lateralmente enquanto que a maoir parte sua há de ser exercida verticalmente para baixo, por isso chamada de força-peso. De resto, todos nós engenheiros agrônomos sabemos de cor: para diminuir a força das águas sempre é recomendável reconstituir a mata ciliar que, neste caso deveria abrangir desde a barranca do rio até a porção superior dos taludes. Isso ajudaria bastante a fixar o solo e diminuir o risco de erosão e a velocidade das águas. Bem, agora só nos resta torcer para que na futura reforma do trecho da citada rodovia estes conceitos - dentre outros - sejam lembrados e nossa classe seja ouvida. Caso contrário os noticiários dessas tragédias hão de continuar. CACONTI.

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Comentário de CARLOS ALBERTO DE CONTI em 24 janeiro 2012 às 20:34

Obrigado Leonel. Você, caro Presidente, sempre camarada para comigo. Abraços. CACONTI.

Comentário de José Leonel Rocha Lima em 16 janeiro 2012 às 17:18

Caro Conti, muito boa a sua abordagem!!!

Sua ampla experiência profissional, com passagem pela EMATER-RIO e atualmente no MAPA,  especializado em irrigação e drenagem o credenciam a fazer esse relato técnico da maior importancia.

Parabéns colega, orgulho da classe agronômica do Rio de Janeiro.

Leonel Rocha Lima

Presidente da AEARJ

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