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Ensinamentos de um “sobrevivente da agricultura brasileira”

Plante que o solo garante: ensinamentos de um “sobrevivente da agricultura brasileira”

Trechos de depoimento de Eurides Penha coletados por Tércia Neiva Gonçalves em 1998.

- Desmatei, arei, plantei, colhi e aprendi muito.  trabalhei bastante, é verdade, mas adquiri siso e tino próprio sobre a coisa e até dei de gostar de plantar – plantando a gente modifica o mundo e se modifica, enquanto aguarda o momento certo da colheita.  Até sonhos eu plantei, mas, nada se compara ao doce cheiro de terra virgem – tem essência de útero e de vida..

- A vegetação dos cerrados goianos me encanta – aqui muito pau nasce torto, galhos são tortos, folhas são ásperas e sinuosas, até a cinza, aqui, é torta.  Tanto pau torno e crespo é a expressão máxima da transcendência, da criatividade das raízes na busca de alternativas à sobrevivência das plantas, num meio ácido, de equilíbrio tão dinâmico e delicado.  Pensando bem, tem hora que as raízes parecem ser mais competentes do que gente, sobretudo aqueles que se entusiasmam diante do lucro rápido e fácil, sem antes perguntar: “até quando, a que preço?” 

- O solo de uma fazenda é um espelho da mentalidade do dono - por trás de um adensamento, de uma erosão, tem sempre um sujeito fragmentado, pragmático, ambicioso, centralizador e obediente às normas. 

- Uma revolução estava acontecendo – era a tal revolução verde, coisa de agrônomo norte-americano que garantia ser possível salvar o planeta da fome à base do uso maciço de adubos químicos, sementes selecionadas e agroquímicos.  Pacotes tecnológicos trazidos para o Brasil, sem consideração com as condições edafoclimáticas, culturais e financeiras.  Não demorou muito, grandes parcelas dos solos agrícolas de Goiás entraram em decadência.  Deram o Premio Nobel para o agrônomo norte-Americano e, nos dias de hoje, uma em cada 6 pessoas passa fome no planeta.

- prevalece o “saber-fazer” europeu – daí a força histórica daquela tal mania brasileira de arar e revolver os solos antes do plantio, como se caísse neve aqui também e fosse necessário revolver a terra para que suas entranhas ficassem expostas a mais luz e calor. Ora, o Brasil é um país tropical, onde luz e calor são coisas que tem de sobra.

- Os solos dos cerrados são mais vulneráveis do que os solos do Sul ou Sudeste - se a ocupação histórica das terras brasileira tivesse começado pelos cerrados, hoje, com certeza, isso aqui seria deserto.

- sempre vejo os campos salpicados por em embalagens de produtos químicos e sujeitos descabelados, trabalhando de sol a sol, apressados e endividados, com as mãos sujas de graxa e o corpo cheio de poeira, mal dormido e massacrado pelo medo de a chuva ser pouca ou muita, o adubo ou herbicida não fazerem efeito – eu não tenho dúvida, esses sujeitos seguem a cartilha do sistema de plantio tradicional.  Aram suas terras todos os anos sem dar descanso algum.  Usam insumos químicos cada vez mais tóxicos e em doses cada vez maiores, pedindo a Deus que dê a eles vida e saúde para fazer uma boa colheita e pagar as suas dívidas.

- Em Goiás a gente vê o longe perto.  Tudo é uma planura só, com áreas enormes elevadas à categoria de “terras aráveis”.  Uma leitura parcial ou reducionista desses solos  leva a adoção de práticas agrícolas inadequadas.  Se aqui me referir ao Sistema Plantio Direto vão dizer que é implicância minha.  Mas não é.  O sujeito que adota esse sistema com a leitura vesga pode não ter a resposta favorável.

- Não quer dizer que o sujeito tenha que providencias um colchão de massa verde ou de restos de cultura para plantar por cima – basta adotar práticas de plantio que, de tempos em tempos, vão favorecer a lenta e gradual adição de matéria orgânica nos solos e estabelecer uma nova situação de equilíbrio, que deverá permitir a distribuição de matéria orgânica em todo o perfil através da ação das raízes, sobretudo das plantas em rotação com a cultura principal que vão participar do sistema de plantio ecologicamente correto.

- O SPD pode ser o primeiro passo para uma agricultura sustentável porque, a baixos custos sociais, financeiros e ambientais, ele pode proporcionar um novo equilibro entre o plantio e o ambiente.

- Enquanto se produz alimentos no deserto, com em Israel, nós estamos produzindo desertos para colher alimentos.  Só quem trabalha o solo com as mãos sabe o valor da matéria orgânica.  Pouco importa a quantidade de alimento que precisamos, o tamanho do financiamento.  O solo dá o que tem e não o que queremos. 


 

EURIDES PENHA, agricultor e músico.

Natural de Morro Agudo, SP, de família ligada à inovação agrícola (sobrinho do inventor da máquina de debulhar milho),  nascido em 1940, veio para Goiás no final dos anos 60, trabalhando na fazenda Paviterrana em Maurilândia até 1971.

De início, dividiu 20 alqueires de terra em áreas de teste e plantou diferentes variedades de leguminosas e gramíneas forrageiras, experiencia que formaria a base do SPD, com o uso de braquiária (B. ruziziensis) e de Calopogonio.  Na sua área, na fazenda Boa Esperança - Querência das Antas, obteve bons resultados com o PD no ano agrícola de 81/82, considerada a primeira experiencia bem sucedida nos cerrados – com a assistência técnica do Eng.agrônomo Benedito Soares Adorno Filho, então da AGROQUIMA.

Parou de plantar em 1983, quando dedicou-se somente a outras atividades, como a musica, mesmo continuando a fazer experimentos.  Em 84/85 plantou soja e milho tendo o calopogonio como base, sem o uso de herbicidas, para o milho e o arroz, enquanto que gramíneas, como a braquiária, é base para leguminosas, como a soja.. Em 1992 foi criada a Sociedade de Estudos Técnicos do Cerrado  CEASSE, sociedade com interesse na pesquisa, desenvolvimento e divulgação de tecnologia aplicada ao cerrado.  Em 1999 foi publicado o primeiro numero da publicação: “Plantio Direto”, onde são relatadas suas experiências na viabilização do PD sem o uso de herbicidas.

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Comentário de PEDRO LUIZ DE FREITAS em 17 julho 2015 às 14:24

Adicione-se os ensinamentos de Paulo Hermann da John Deere e lider da Rede IPLF:  mudar paradigmas é como mudar o lado da cama que se dorme. 

Comentário de José Leonel Rocha Lima em 20 junho 2015 às 13:11

Excelente meu caro colega e amigo Pedro Freitas!!!

Grandes contribuições para participações ativas dos nossos colegas no Simpósio do Ano Internacional do Solo no RJ.

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