Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Os peixes migram para desovar, para se alimentar e buscar refúgio de predadores ou sob condições ambientais nocivas, como o congelamento completo de um riacho ou lago. Por outro lado, uma queda d´água ou a construção de barragens costumam impedir essa migração. A escada de peixes é um canal projetado para permitir a passagem de uma espécie ou de várias espécies diferentes de peixes após uma obstrução do rio ou córrego.

Desde as mais remotas civilizações, os cursos d’água têm sofrido os efeitos da ação antrópica, direta ou indiretamente. Interrupções como as provocadas pelas barragens afetam diretamente as espécies migradoras, que necessitam deslocar-se ao longo do rio em alguma fase de seu ciclo de vida. Para solucionar esse problema ambiental, foram desenvolvidas estruturas hidráulicas que permitem ao peixe a transposição desses obstáculos. Conhecidas como mecanismos de transposição de peixes (MTPs), tais estruturas passaram a ser amplamente utilizadas em todo o mundo. (1)

Tipos de escadas de peixe

Um manual da FAO indica os seguintes tipos: escada de piscina, escada de fenda vertical, escada Denil (de contra fluxo), escadas de enguia, eclusa de peixe e elevadores de peixe.

A Figura abaixo mostra o posicionamento da escada de peixes, no extremo lateral da barragem. Observe que enquanto as setas maiores indicam o sentido do fluxo da água no rio (inclusive na escada), as da extrema direita indicam o percurso dos peixes na escada.

A determinação da condição ótima de dissipação de energia é baseada em espécies de peixes de clima temperado, não existindo estudos para espécies neotropicais. O mesmo se aplica aos valores de abertura, bo, e de profundidade mínima, Yo, que dependem da largura do peixe e do comportamento natatório de cada espécie na coluna d’água, respectivamente. Assim, são propostos na literatura valores de abertura da ranhura entre 15 e 17 cm e uma profundidade mínima de 50 cm para as trutas, enquanto para o salmão, bo varia entre 30 e 60 e Yo entre 75 e 130 cm (GEBLER, 1991 e LARINIER, 1992).

A inclinação das escadas So (figura 2) é determinada pelo arranjo do impedimento a ser transposto. No entanto, devido à influência desse parâmetro na velocidade do escoamento, que por sua vez deve ser compatível com a do peixe, é aconselhado que a inclinação não seja muito alta, estando entre 10 e 15% (KATOPODIS, 1992 e LARINIER 2002).

A determinação das três variáveis, bo, Yo e So, permite a obtenção da vazão da escada, além da velocidade máxima e da dissipação de energia, cujos valores devem ser comparados com os demandados pelos peixes do local (LARINIER, 2002).

Portanto, nesse ponto do dimensionamento de um mecanismo tipo escada, os valores de velocidade máxima do escoamento devem ser comparados com as capacidades natatórias das principais espécies alvo da transposição.

Projeto de escada de peixe tipo Piscina

A Planilha abaixo apresenta o dimensionamento hidráulico da escada de peixes tipo piscina, transcrito do Manual da FAO (citado abaixo).

REF.: (1)

http://www.cemig.com.br/pt-br/A_Cemig_e_o_Futuro/sustentabilidade/n...

http://www.mfap.com.br/pesquisa/arquivos/20090402162200-GIA%20-%203...

http://www.fao.org/3/y4454e/y4454e00.htm

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Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 15 outubro 2019 às 18:31

PROJETO DE ESCADA COM FENDA VERTICAL

Bom proveito.

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 15 outubro 2019 às 7:54

ESCADA DE PEIXE EM BUEIROS

A construção de uma ponte ou um bueiro em arco para atravessar um córrego pode manter a forma natural de fluxo e as condições do substrato (geralmente oferecendo a melhor solução para superar os problemas da barreira de migração de peixes) em uma travessia rodoviária, mas exigem mais material, custos, tempo e mão de obra.

Enquanto a escada de peixes considera o enfoque biológico (por exemplo, números dos peixes que passam), o projeto de bueiros com a mesma finalidade define as condições hidráulicas associadas ao movimento dos peixes e oferece uma oportunidade de abordar a hidráulica da estrutura e a biologia do peixe de maneira integrada.

A migração de peixes e outras espécies da fauna aquática é frequentemente obstruída, nos bueiros sob rodovias, por condições hidráulicas adversas, como altas velocidades da água, turbulência excessiva, falta de local de descanso ou abrigo, desníveis na saída e pouca profundidade.  Esses obstáculos podem ser contornados com o uso de defletores, vertedores, comportas e outras estruturas hidráulicas instaladas no interior e mesmo à montante e jusante do bueiro. (1)

Segundo alguns autores, a largura mínima a ser projetada no leito de um bueiro destinado à passagem de peixes, é dada pela equação abaixo.

Quanto à declividade do leito recomendada para a instalação do bueiro, as três Figuras mostradas abaixo, dão uma indicação, começando pela declividade nula.

Para declives superiores a 4%, é utilizado material de leito nativo ou projetado, sem estruturas de controle de leito. O sedimento mais grosso encontrado nos riachos é considerado adequado controlar a estabilidade do leito e criar caminhos para a passagem de peixes. A Figura acima mostra como.

Os objetivos principais do bueiro adaptado como passagem de peixes são: fornecer condições hidráulicas adequadas (por exemplo, velocidade, abrigo, turbulência) através da estrutura e superar condições adversas (por exemplo, altas velocidades, pequena lâmina d´água, falta de abrigo, excesso de turbulência, queda ou brusca redução do N.A.) para permitir que os peixes passem rio acima durante vazões baixas e médias.

Para fins biológicos, consideram-se baixas vazões aquelas em que a lâmina d´água não excede 50 cm; vazões médias, de 0,5 m a 1,5 m de lâmina; e vazões altas, alturas superiores a 1,5 m.

A Figura abaixo mostra o perfil de um bueiro e as zonas de interesse do estudo local das ações topográficas e de fluxo na passagem de peixes e outros pequenos animais.

Dependendo do habitat aquático e de dados sobre a movimentação de peixes e outras características locais, o uso de bueiros como passagem de peixes, pode dispensar o (bem mais caro) projeto de pontes.

A Figura abaixo apresenta as condições de fluxo à jusante de bueiros (as duas fotos de cima) e estruturas hidráulicas tipo defletores, usados em locais com declividade elevada; abaixo e à esquerda, defletores tipo "L" perpendiculares ao eixo do bueiro; abaixo e à direita, defletores em ângulos de 30o do lado esquerdo e 90o do lado oposto.

Enquanto ainda não nos preocupamos com esses 'detalhes' aqui no Brasil, países como a Austrália, estudam soluções para problemas de barreira à migração de peixes em cruzamentos de estradas e outras pequenas estruturas hidráulicas, usando uma abordagem eco-hidráulica (fundamentada em testes hidráulicos de laboratório, uso de protótipos e instalações de campo).

No projeto de uma escada de peixe, fatores importantes a serem considerados incluem a características do tipo da escada, bem como o desempenho e comportamento de natação da espécies de peixes a serem beneficiadas. Os critérios biológicos e hidráulicos para projetar escadas de peixe variam de acordo com a espécie e tamanho dos peixes.

A barreira da velocidade do fluxo

As velocidades da água nos bueiros são geralmente muito mais altas e mais uniformes do que nos canais naturais, onde a sua forma e a complexidade do substrato fornecem diversas condições de passagem para os peixes.

O comprimento máximo admissível do bueiro para dada velocidade máxima da água depende do tempo de resistência, tamanho e espécies de peixes que possam nadar nesta velocidade ou acima dela. Nos bueiros adaptados para passagem de peixes, as profundidades da água no bueiro são aumentadas, as velocidades são reduzidas e outras condições de fluxo são alteradas (localmente ou por toda a estrutura) usando-se uma abordagem do tipo tanque (ex. defletor lateral -- vide imagem do centro na Figura abaixo) ou do tipo rugosidade (uso de seixos rolados ou brita, imagem da direita).

A capacidade dos peixes de superar as barreiras de velocidade na estrutura depende da velocidade do fluxo no bueiro e da capacidade de natação dos peixes, que varia de acordo com a espécie e a fase da vida (por exemplo, juvenil ou adulto).

O peixe usará o modo de natação explosiva, onde eles nadam na velocidade máxima por curtos períodos de até 20 segundos, ou um modo de natação prolongado, em que nadam sem descanso por um período de até 200 minutos ou 3,3 horas. A distância que os peixes podem percorrer rio acima nesses modos alternativos de natação depende da velocidade do fluxo de bueiro e sua capacidade de nado e pode ser expressa de forma rudimentar da seguinte maneira:

X = (U - V) tm

onde:

X = distância percorrida (m)

U = velocidade máxima de natação dos peixes (> 0,3 m/s)

V = velocidade da água (m/s)

tm = tempo de resistência (s)

A profundidade de fluxo mínima desejada para espécies de peixes de pequeno e médio porte é supostamente 0,20 - 0,30 m.

Para velocidades de até 0,5 m/s em condições de fluxo médio dentro dos bueiros, várias espécies de peixes (velocidade prolongada de muitas espécies < 0,5 m/s) não poderão atravessar todo o comprimento do bueiro sem que hajam pontos de descanso, espaçados no máximo de 2 m de intervalo entre eles. Peixes com uma velocidade de natação de pelo menos 0,6 m/s podem passar pelo bueiro onde a velocidade entre os pontos de descanso é de 0,5 m/ s e peixes com velocidade de natação de pelo menos 0,4 m/s pode passar pelo bueiro onde a velocidade entre os pontos de repouso dentro do zona de passagem é de 0,3 m/s. Dados de velocidade de natação para a comunidade de peixes (velocidade de explosão da maioria das espécies > 0,6 m/s) indica que virtualmente todas as espécies de peixes são capazes de ultrapassar o bueiro com fluxo médio, se as velocidades do bueiro corresponderem a essas condições (Kapitzke 2007a).

Estruturas hidráulica nos bueiros

Em geral, o comprimento máximo dos bueiros sob rodovias (nos Estados Unidos) não ultrapassam os 30 m. (2)

Estruturas hidráulicas (por exemplo, defletores) incorporadas no bueiro para fornecer condições hidráulicas adequadas para uma ou mais espécies de peixes, podem provocar estresse, atraso ou lesão indevida (Katopodis 2001).

REF.:

(1) Culvert Fishway Planning and Design Guidelines, Ross Kapitzke, James Cook Univ., Austrália, 2010.

(2) https://www.fhwa.dot.gov/engineering/hydraulics/pubs/07033/07033.pdf

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 12 outubro 2019 às 16:49

PLANEJAMENTO DE UMA ESCADA DE PEIXES

Etapa 1 - Identifique as espécies-alvo para a passagem de peixes ou triagem.

Etapa 2  - Determine o período exato da migração e estágio atual da mesma.

Etapa 3 - Determine as limitações físicas das escadas de peixes (velocidade de natação, habilidade de salto e outras).

Etapa 4  - Identifique os atrativos ambientais e estressores (volume e velocidade do fluxo, temperatura da água e período da piracema).

Etapa 5  - Identifique quaisquer características comportamentais relevantes das espécies-alvo que poderiam afetar a passagem de peixes (preferências de temperatura da água e evasões).

Tipo e tamanho corporal

Peixes em locais de fluxo rápido geralmente têm corpos em formato de torpedo (como os dois primeiros na Figura baixo), que oferecem menor resistência ao fluxo (truta prateada e truta arco-íris, p.ex.). Por outro lado, peixes achatados (carpa e outros, como os três de baixo na Figura) habitam rios com correntes mais suaves ou  maiores profundidades médias.

A seção transversal e o tamanho do peixe (este varia com a idade) são importantes no dimensionamento das estruturas hidráulicas que compõem as escadas de peixes, em especial os orifícios, ranhuras e vertedores.

Muitas espécies de peixes não podem saltar obstáculos; o arenque (e a maioria das espécies) pode ser bloqueado por uma estrutura de apenas 30 cm de altura.

O tamanho do peixe e seu estágio de desenvolvimento também afetam a capacidade de natação. Peixes jovens e menores não nadam tão fortemente quanto adultos saudáveis da mesma espécie. Velocidades menores do fluxo devem ser consideradas na concepção dos projetos de escadas de peixes (Tillinger e Stein, 1996).

Hábitos dos peixes

As escadas de peixes não devem impor condições artificiais que excedam as suas habilidades naturais locomotivas, ou que afetem adversamente sua resposta comportamental a um determinado estímulo.

Alguns peixes (sável, p.ex.) hesitam em nadar através de um orifício submerso, preferindo o fluxo que é direcionado através de uma fenda vertical, ou sobre um vertedor. Turbulência excessiva em uma entrada da escada de peixes, pode confundir ou restringir a espécie-alvo.

Muitos peixes costumam subir um rio em velocidades mais baixas, ao longo das suas margens. Inversamente, emigrantes juvenis são geralmente encontrados se movendo a jusante na parte de fluxo mais rápido do canal, na profundidade de 30 cm.

A Figura abaixo lista as velocidades sustentada, de cruzeiro e explosiva e a altura máxima de salto de algumas espécies de Salmonídeos, ou seja, os mais velozes conhecidos.

Velocidade

As velocidades do fluxo no interior de uma estrutura de passagem (escada ou rampa) de peixes devem ser inferiores à capacidade de natação sustentada de cada espécie, em seções uniformes longas, e menores do que a velocidade de explosão em distâncias curtas (Katopodis 1991). Peixes que são forçados a nadar através de uma estrutura com velocidades explosivas ou de cruzeiro sustentadas, sofrerão estresse por fadiga.

As áreas de repouso devem ser projetadas se as velocidades dentro de uma estrutura forem maiores que as capacidades de natação das espécies-alvo para longas distâncias.

Redutores de velocidade e sombras usando pedregulhos ou madeira podem ser usados para proporcionar áreas de descanso  em canais rugosos ou passagens de peixes que são projetados para imitar as condições naturais do fluxo, como o mostrado na Figura abaixo. Critérios de velocidade por espécie seriam então aplicados às áreas de fluxo entre áreas de descanso construídas.

Profundidade

As profundidades mínimas de baixo fluxo nas escadas de peixes devem ser mantidas para acomodar o tamanho do peixe, habilidades de natação e respostas comportamentais. Em geral, a Engenharia de Pesca recomenda que a profundidade do fluxo seja maior ou igual a duas vezes a altura dorso-ventral do peixe. Critérios de maior profundidade podem ser aplicados a vários componentes das passagens de peixes, para atender às necessidades de certas espécies ou para atender detalhes específicos do local.

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 12 outubro 2019 às 7:44

ÓBICES AOS PROJETOS DE ESCADAS DE PEIXES

A escada de peixes não é a solução mágica que um projetinho numa planilha Excel como a que eu apresentei aqui, resolva os problemas da piracema, pelo menos aqui no Brasil. Todos os modelos que conhecemos são importados de países desenvolvidos, onde os estudos são levados à sério. Em Março de 1975 (44 anos atrás), um amigo meu, César Augusto, defendeu TCC de Mestrado na UFRJ, ESTUDO DE "PEIXE TIPO" PARA PROJETO DE ESCADAS DE PEIXE EM BARRAGENS, ignorando completamente os estudos de Biologia e a nossa diversidade biológica.

A Figura abaixo nada tem a ver com o trabalho citado acima; ao contrário, mostra que em cada projeto de escada de peixes, o projetista deve se preocupar com as medidas do peixe-alvo.

Os Sistemas de Transposição para Peixes (STPs), que visam a facilitar o fenômeno da piracema, em algumas situações não tem apresentado os resultados esperados. Existe a necessidade de conjugar os aspectos técnicos como a altura do desnível e vazão do corpo d’água com os aspectos biológicos, pois os tamanhos das espécies definirão o tipo e as dimensões do sistema a ser adotado, bem como as características de locomoção e força serão responsáveis pelo grau de inclinação dos mesmos para vencer a barreira física da altura. (1)

Os projetos implantados no Brasil basearam-se em dados construtivos de países de clima temperado como Canadá e Estados Unidos, sendo que um dos aspectos mais importantes considerados nesses projetos é a velocidade da água no mecanismo.

No Brasil, no entanto, em face à existência de uma grande diversidade de espécies migradoras, com características natatórias diversas, é possível que eficiência das estruturas implantadas tenha ficado bastante comprometida (Vicentini, 2009; Martinez, 2009).

A simples adoção de uma alternativa promissora, analisando puramente o aspecto técnico da solução, não é garantia de sucesso na transposição de peixes, necessitando, ainda, da avaliação das variantes ambientais e biológicas ou, ainda, hidráulicas complementares (Martins, 2000; Tamada, 2000). Estes mesmos autores reconhecem, ainda, a complexidade e o desconhecimento biológico e hidráulico no que se refere às escadas de peixes, salientando para os riscos de ineficiência e a necessidade de estudos para o desenvolvimento de uma tecnologia nacional e formação de um quadro de profissionais específicos habilitados.

Desta forma, surge como premissa incontestável o estudo dos aspectos técnicos, biológicos e de dimensionamento para obter-se o máximo de sucesso na construção de um caminho artificial alternativo para os peixes migradores.

Aspectos técnicos a serem considerados

Os dispositivos de passagens para peixes incluem componentes técnicos de engenharia e de biologia. Ao mesmo tempo em que exigem a definição de características técnicas estruturais e funcionais, têm de considerar fatores do âmbito da biologia das espécies a que se destinam, como as suas capacidades de natação e salto e sua época de migração (Santo, 2005).

São necessários, portanto, a coleta de dados biológicos, hidrológicos, hidráulicos, topográficos e de qualidade da água (Porcher & Larinier, 2002).

ESCOLHA DO TIPO DE DISPOSITIVO

A escolha do tipo de dispositivo a utilizar não segue parâmetros rígidos, devendo ficar a critério do projetista a escolha da melhor solução. No entanto, devem ser considerados os seguintes fatores (PORCHER & LARINIER, 2002):

  1. a) As espécies a que se destina o dispositivo;
  2. b) O volume de água a transitar no seu interior;
  3. c) As variações de nível a montante e a jusante;
  4. d) Os acidentes topográficos;
  5. e) O desnível a vencer;
  6. f) O custo de funcionamento e;
  7. g) O transporte sólido

CONCLUSÃO

Espero que as considerações do colega Alcimar não desanimem quem deseja projetar uma escada de peixes. Nos blogs anteriores, procurei destacar com negrito e letra vermelha os parâmetros de projeto (e suas limitações) mais importantes.

Da pesquisa bibliográfica que realizei, sobretudo no exterior, concluo que os estudos mais sérios e confiáveis são (ou foram) aqueles realizados em Modelos Reduzidos (vide Figura abaixo). A seriedade dos estudos, também me impressionou. Num deles, sobre a vazão do rio, até a Vazão Móvel de 3 Dias (período considerado crítico para a piracema na região) foi calculada.

Aqui no Brasil também estamos desenvolvendo estudos interessantes. Cito como exemplo a UHE de Santo Antônio, em Rondônia, onde é feita a monitoração dos peixes (com medições e até chips nos peixes) e materiais alternativos para a dissipação de energia, como barreiras de gabiões. A Figura abaixo mostra algumas espécies (de couro) migradoras, para enfatizar nossa imensa biodiversidade. (2)

Uma solução elegante seria a venda de módulos de concreto ou PVC rígido de escadas-tipos, para dadas espécies de peixes, vazões e declividades. Isso já é feito com outros canais e medidores de vazão tipo Parshall.

REF. (1)

IMPLANTAÇÃO DE SISTEMA DE TRANSPOSIÇÃO PARA PEIXES JUNTO A HIDRELÉTRICAS: ASPECTOS TÉCNICOS A SEREM CONSIDERADOS PARA AS PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS,

Arrais, Alcimar e col., Caderno de Pesquisa, série Biologia, volume 24, número 2

file:///C:/Users/Usuario/Downloads/3592-14190-1-PB.pdf

(2)

http://www.meioambiente.mppr.mp.br/arquivos/File/Acervo/Ecologia_Ma...

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 7 outubro 2019 às 18:23

ICTIOMECÂNICA NA ESCADA DE PEIXES

Nos canais das escadas de peixes, o transporte desses animais depende de que a velocidade da água não exceda a habilidades de natação das espécies migratórias. A capacidade de nadar varia de acordo com a espécie, tamanho, temperatura, oxigênio, pH e salinidade da água. A velocidade da água depende do tipo da escada de peixes, inclinação do canal e profundidade da água.

No projeto de uma escada de peixes, fatores importantes a serem considerados incluem as características do tipo de estrutura, bem como o desempenho e comportamento de natação das espécies de peixes a serem atendidas. Os critérios biológicos e hidráulicos para projetar escadas de peixes variam de acordo com as espécies e os tamanhos de peixes.

Requisitos biológicos, como: morfologia dos peixes, comportamento, motivação, preferências, tempo de migração e capacidade de natação orientam os critérios de projeto e operação  das escadas de peixe. A capacidade de nadar é, portanto, um componente essencial para a conclusão bem-sucedida das migrações de peixes.

As escadas de peixe, geralmente, consistem em um canal inclinado, particionado por vertedores, defletores ou palhetas com aberturas (orifícios) para os peixes passarem. Os dispositivos no canal atuam hidraulicamente juntos para produzirem condições de fluxo que permitam os peixes se locomoverem. Canais escavados que utilizam rochas, soleiras ou vertedores (e bueiros sob rodovias) também são usados como escadas de peixe.

Uma escada eficaz atrai peixes rapidamente e permite que eles entrem, passem e saiam com segurança com gasto mínimo (para o peixe) de tempo e energia.

Tipos de escadas de peixe (1)

Os mais comuns são do tipo tanque&vertedor, tanque&orifício, fenda vertical, defletores, rampa de pedras, elevador e sifão. As escadas de peixe tipo tanque-e-vertedor são frequentemente as menos caras, enquanto as tipo Denil (defletores) são geralmente menos caras do que os tipo fenda vertical.

Como a eficiência hidráulica da escada e os requisitos ideais de passagem dos peixes são objetivos mutuamente exclusivos, devem ser feitos compromissos que permitam proteção adequada dos peixes com máxima economia. Tais compromissos envolvem a correspondência de velocidades da água com desempenho de natação em descargas de projeto que permitam limites, se houver, atraso nas migrações de peixes.

Um bueiro simples que atenda à velocidade de passagem de peixes (geralmente 1,20 m/s ou menos) e lâmina d'água mínima (geralmente 0,20 m na entrada, interior e saída) pode ser usado com peixes pequenos; ou aqueles com dispositivos usados nas escadas de peixes.

Profundidade das escadas de peixe

Em geral, a Engenharia recomenda que a profundidade do fluxo do canal seja maior ou igual a duas vezes a altura do eixo dorsoventral do peixe, para que fique totalmente submerso. Podem ser aplicados critérios de maior profundidade a vários componentes das escadas de peixes, para atender às necessidades de certas espécies ou para atender preocupações específicas do local.

Escadas tipo vertedores, p.ex., são muito sensíveis a mudanças nos níveis de água entre tanques contíguos (vizinhos), cuja queda d´água não deve ultrapassar 20 cm de altura.

Largura das escadas de peixe

Em um ambiente natural, os peixes estão acostumados a se mover em um rio aberto. As escadas de peixe, por necessidade, têm o fluxo concentrado e aberturas estreitas aceleram a velocidade. Essas condições podem inibir a capacidade de nadar, ferir peixes ou provocar uma resposta de evasão. Esses fatores devem ser tomados em consideração dentro do processo de projeto.

Velocidade do fluxo nas escadas

O fator principal da velocidade do fluxo é dado pela inclinação da rampa da escada de peixe. A queda do nível da água entre as piscinas é geralmente de 300 mm para salmão adulto e 200 mm para peixes de água doce adultos. As declividades máximas usuais das escadas de peixe são de 10% (tipo vertedores) a 15% (tipo Denil); e de 15% a 25% para o salmão.

Os bueiros construídos sob as rodovias, com adaptações internas (vertedores, defletores e outras), também podem atuar como escadas de peixes, mas adotando declividades entre 0,5% e 5%.

As escadas de peixe criam velocidades de água espacial e temporalmente variáveis (por exemplo, baixa velocidade em um piscina inativa e alta velocidade sobre uma crista de um vertedor). O intervalo desejado depende de: 1) habilidade natatória do peixe; e 2) a resistência das espécies-alvo de peixes (a duração em que o a velocidade do nado pode ser mantida). (Larinier et al., 2002). Para algumas espécies, os projetistas recomendam Vmáx. = 2 m/s. Outros, a seguinte relação entre a Velocidade cruzeiro (Vc), a Velocidade normal (Vn) e a Velocidade máxima (Vm) do peixe: Vc = 1/3*Vn = 1/6*Vm. Outros: Vmáx. = √2gh.

Fadiga do peixe na escada

Uma escada de peixe deve ser projetada de modo que nenhuma barreira de velocidade impeça a segurança, pontualidade e eficácia do peixe. A velocidade da água se torna uma barreira quando: 1) a velocidade da água é maior que a velocidade de explosão do peixe; ou 2) o peixe sofre de fadiga antes de passar por uma área de alta velocidade.

Os peixes se movem através de escada tipo Denil mais rapidamente do que através das de fendas verticais ou de vertedores. Como os peixes precisam nadar constantemente enquanto estão na rampa (ex.: escada tipo Denil), piscinas de descanso são colocados ao longo da rota a cada 10 a 15 m para salmão adulto e 5 a 10 m para água doce em adultos espécies.

A energia cinética nas escadas deve ser dissipada para garantir que as velocidades de fluxo não excedam a capacidade de natação de peixe. A distância percorrida pelo peixe num bueiro (2), p.ex., é dada pela expressão:

REF.

(1) https://theconstructor.org/water-resources/types-fish-ladders-fishw...

(2) https://www.jcu.edu.au/__data/assets/pdf_file/0007/120202/jcuprd1_0...

P.S. - Obrigado por colaborar e pelo incentivo, colega Jonas Oliveira. Eu nasci em Belém - PA e, até na Amazônia (apesar da pouca declividade dos rios, em alguns trecho -- onde se construíram hidrelétricas) essas estruturas hidráulicas são indispensáveis. Um abraço.

Comentário de Jonas Maurício Bertoldo Oliveira em 7 outubro 2019 às 15:52

Ótimo material!

Aqui no Maranhão temos a Usina Hidrelétrica de Estreito, localizada na cidade de Estreito - MA. Uma vez viajando pela região conversei com uma pessoa que trabalhou durante a construção da usina. Ele mencionou a mortandade de peixes durante o processo construtivo (mesmo com EIA/RIMA aprovado) e citou a inexistência dessas escadas para a ictiofauna local. O que compromete toda a cadeia alimentar e o ciclo de vida de várias espécies da região.

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 5 outubro 2019 às 7:38

ALGUMAS ESCADAS DE PEIXES CONSTRUÍDAS NO BRASIL

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