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E quanto ao cheiro e gosto de terra da água 'potável' da Companhia de Água e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) aqui está a vilã.

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Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 9 fevereiro 2020 às 12:19

HORMÔNIOS A NOVA ASSOMBRAÇÃO DA CEDAE

Depois da Geosmina e do detergente em excesso na água potável dos cariocas, surge a vez dos hormônios. No artigo "Esgoto do século XXI, tratamento da Idade Média" d´O Globo de hoje, Domingo 9.2.2020, caderno Rio, pág. 23, a jornalista Ana Lúcia Azevedo chama a atenção para a tese que detectou a presença de hormônios na água distribuída pela CEDAE em análises feitas em 2016 e 2017. Problema é reflexo da falta de saneamento: apenas 1% dos dejetos que chegam à captação do Guandu passa por alguma estação.

O trabalho à que se refere é a tese de doutorado de Juliana Gonçalves Fernandes, na Universidade de São Paulo (USP), intitulada "Ocorrência de poluentes emergentes nos rios Piraí, Paraíba do Sul, Guandu e na água de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro", que investigou a presença de estrona, 17-estradiol, estriol, progesterona, testosterona, 17-etinilestradiol, bisferol A e cafeína na água de abastecimento. (1)

(Rio Guandu, nas proximidades da captação da água para a ETA)

Poluentes emergentes

A contaminação da água pelos chamados poluentes emergentes -- que abrangem remédios, protetores solares, repelentes de insetos, sabonetes, plásticos, pesticidas, além de microplásticos -- sequer é monitorada, porque não existem parâmetros oficiais de segurança, adverte Márcia Dezotti, coordenadora do Laboratório de Controle da Poluição das Águas da Coppe/UFRJ. Há anos ela adverte as autoridades para a necessidade de estudar e evitar esse tipo de contaminação.

O problema é que esses poluentes, que interferem no nosso sistema endócrino (hormônios, produtos de limpeza, plásticos, etc.) não são tratados pelas parcas estações em operação no Rio.

Para se ter uma ideia da importância do problema, na tese da Juliana, destacando apenas um dos hormônios encontrados na água de abastecimento, o 17-Estradiol, componente de pílulas anticoncepcionais e tratamentos de reposição hormonal na menopausa, ele foi detectado em concentrações 33 vezes acima da segurança.

Dos elementos pesquisados, apenas a Cafeína é não-hormonal, mas foi encontrada em todas as amostras de água tratada. Esse produto, embora não cause problemas de saúde, é um indicador específico de dejetos humanos no esgoto, vez que cerca de 3% da cafeína consumida (em café, chá, chocolate, guaraná, refrigerantes e tabaco) são excretados na urina.

Tratamento de esgotos

Se o esgoto fosse tratado, a água bruta captada pela CEDAE no Rio Guandu, teria uma qualidade muito melhor e demandaria um tratamento (na ETA) mais simples e barato, destaca Renata Falcão Dantas, diretora da Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas 9Unicamp) e líder de um grupo que faz pesquisas na área de meio ambiente e tratamento:

"Como nem as estações de tratamento de esgoto (ETEs) nem as estações de tratamento de água (ETAs) estão preparadas para eliminar esse tipo de contaminação, esse é um problema a ser resolvido nos dois casos. Vale salientar que a principal questão é a falta de tratamento adequado de esgoto, pois estamos contaminando diariamente os corpos hídricos com esses compostos".    

E por falar em tratamento de esgoto da Idade Média, nos últimos anos, a maior inovação que foi criada no já tradicional método de Tratamento Secundário por Lodos Ativados, foi o uso de umas pecinhas de plástico no método cuja sigla MBBR, que substitui a pedra britada das estações de tratamento antigas chamadas de Filtro biológico. Aqui estão elas, e a explicação, é que aumenta a área para fixação das bactérias que comumente tratam o esgoto.

REF. (1)

https://extra.globo.com/noticias/rio/geosmina-traz-tona-problemas-m...

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 6 fevereiro 2020 às 17:16

DETERGENTE NA ÁGUA DO GUANDU

No Globo de hoje, 06.02.2020, caderno Rio, pág.14, o jornalista Felipe Grinberg diz em seu artigo "Agência de Emprego", sobre a CEDAE, que a presença de detergente no Guandu está dentro dos padrões da Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, ou seja, 0,5 mg/L quando se trata de água usada para abastecimento público após tratamento. Diz ainda que o Instituto Estadual do Ambiente - INEA coletou amostras de água que resultaram em 0,34 mg/L na lagoa de captação da água bruta e 0,23 mg/L na ETA Guandu.

Acontece que na Tabela I - Valores máximos permissíveis das características físicas, organolépticas e químicas da água potável do livro VIGILÂNCIA E CONTROLE DA QUALIDADE DA ÁGUA PARA CONSUMO HUMANO, Ministério da Saúde, Brasília - DF, pág. 166/213, 2006, o índice máximo para detergentes na água potável é de 0,2 mg/L e não 0,5 mg/L como dizem o INEA, a CEDAE e o CONAMA. (1)

REF. (1)

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigilancia_controle_quali...

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 28 janeiro 2020 às 9:47

COMO REDUZIR O EFEITO DA GEOSMINA

A  SABESP  classifica as águas  destinadas  para  consumo  humano  que  possuam  a partir de  50  ng/de  Geosmina (GEO) ou  até  100  ng/L de  2-Metilisoborneol (MIB)  como  objetáveis. Embora  GEO  e  MIB  possam  causar  gosto  e  odor  desagradáveis,  estes  compostos  não  estão  relacionados  na  legislação  vigente  para  controle  e  qualidade  da  água  para  consumo  humano  (portaria  518/04  do  Ministério  da  Saúde).

A Figura abaixo mostra uma colônia de bactérias que crescem em longos filamentos de terra, os actinomicetos (Streptomyces) que exalam uma substância chamada Geosmina, cuja fórmula química foi inserida na imagem.

Muito embora uma água potável do  ponto  de  vista  microbiológico, isenta de cor verdadeira e turbidez e de compostos orgânicos e inorgânicos, seja considerada  segura  do  ponto  de  vista sanitário,  a  presença  de  gosto  e  odor causa  transtornos  consideráveis  junto aos consumidores, podendo colocar em xeque a operação e a confiabilidade da Companhia de Saneamento como um todo junto à população. (1)

De acordo com AWWA (1995), a grande evolução na identificação e tratamento de problemas de gosto e odor em águas de abastecimento ocorreu em 1965 quando os pesquisadores Gerber e LeChevalier isolaram e identificaram o composto Geosmina, produzido por culturas de actinomicetos, sendo estes causadores  de  gosto  e  odor  de  terra. Mais  tarde,  em  1969,  Gerber  isolou um  segundo  composto  denominado 2-metilisoborneol (MIB), também produzido por culturas de actinomicetos.

A classificação de gosto e odor em águas de abastecimento é efetuada  de  acordo  com  as  sugeridas por  AWWA  (1987)  e  Burlingame et al (1991), sendo um total de quatro e oito classificações para gosto e odor, respectivamente.  Estas  classificações dão origem a Roda de Gosto e Odor (vide Figura abaixo), sendo  que  a  mesma  abrange  todas  as sensações que têm sido documentadas nos últimos tempos para águas de abastecimento público.

Painel  Sensorial  é  um grupo de 4 ou 5 analistas selecionados e treinados, podendo-se utilizar pessoal técnico ou não técnico. De um modo geral, o Painel Sensorial é uma avaliação  da  percepção  criada  pelo  gosto  e odor  de  uma  água  de  abastecimento e  a  caracterização  de  cada  elemento sensorial  (Analista)  é  a  que  contribui para a impressão final.

Apesar  de  existirem  quatro  gostos  primários  (doce,  ácido,  salgado  e amargo), o número de odores é quase ilimitado. Como os seres humanos possuem memória organoléptica, eles são capazes de determinar diferenças entre sensações de odor e suas intensidades. A população pode suportar concentrações de Geosmina na água final, com Cloro residual, em torno de 100 ng/L a 150 ng/L.

As amostras foram acondicionadas em frascos de vidro (erlenmeyers) com capacidade de 1.000 ml, com tampa de vidro esmerilhado ou teflon e submetidos à análise sensorial em temperatura ambiente. Podem ser empregados copos de plástico descartável, desde que estes não confiram gosto e odor às amostras. Alguns analistas sentem cheiro de plástico ou aroma floral nas amostras usando este tipo de material. Neste caso devem ser utilizados frascos de vidro. As análises sensoriais devem sempre efetuadas com as amostras em seu estado natural e, também, decloradas com Ácido Ascórbico, a fim de que possam ser eliminadas as interferências com respeito à presença de  concentrações  residuais  de  agentes desinfetantes.

As  principais  recomendações efetuadas aos analistas é que estes não fumem  ou  ingiram  alimentos durante, pelo menos, meia hora antes dos ensaios, bem como não utilizem perfume, colônia ou lavem as mãos com sabonete antes da sessão.

A intensidade de gosto ou odor foi julgado numericamente de acordo com a seguinte escala: isento (0), limiar (2), fraco (4), fraco  a  moderado  (6),  moderado  (8), moderado a forte (10), forte (12).Uma  vez  tendo  cada  analista  reportado  a  presença  de  odor  ou  gosto em uma amostra e, tendo sido o mesmo reconhecido, era atribuída uma nota, de acordo com a escala apresentada. Caso a maioria dos analistas (número superior a  50%)  tivesse  concordado  com  uma determinada a descrição, era efetuada a média e atribuída uma nota à amostra.

A  faixa  de  trabalho para  os  compostos  MIB  e  Geosmina  é de 4 ng/L a 250 ng/L e, caso alguma amostra  apresentasse  valor  superior a  250  ng/L,  esta  era  diluída  a  fim  de que  a  sua  concentração  situasse  nesta respectiva faixa de trabalho, tendo  sido reportado  valores  de  intensidade  de gosto e odor de 10 (moderado a forte) a 12 (forte).

Em São Paulo, quando as concentrações de Geosmina na água atingiram de  600  ng/L  a 3.000  ng/L gerou  em  torno de  100  a  150  reclamações  diárias  por parte dos consumidores. Em Abril  de  2004, se  observou  valor  elevado  de  intensidade  de  gosto  e  odor,  da  ordem  de  8 (moderado)  para  a  água  final (com Cloro residual da ordem de 2 mg/L),  sendo que  as  suas  concentrações  observadas de Geosmina situaram-se em torno de 50 ng/L a 450 ng/L.

A  tecnologia mais empregada para o  controle  é  a  adição  de  carvão  ativado em  pó  (CAP),  sendo  este  muito  mais efetivo  na  remoção  de  Geosmina  do que MIB.

Custos do tratamento

Devido à ambientação dos consumidores à água final contendo concentrações  de  MIB,  em  função  de suas concentrações na fase líquida, não faz necessário que sejam efetuadas dosagens de CAP junto à água bruta, sendo que estas, de modo a serem efetivas na remoção de MIB, necessitam ser superiores a 20 mg/L (Ferreira Filho, 2001). Considerando  os  custos  do  CAP  no território nacional (R$ 2,50/kg) e a vazão da ETA ABV (14 m3/s), a supressão da dosagem de CAP, quando não necessária, permitiria uma economia diária em torno de R$ 60.000,00, além de se evitar um aumento na produção de lodo. 

A Planilha abaixo estima o valor do custo do tratamento na ETA do Guandu, com os dados de São Paulo.

REF.

(1) http://www.scielo.br/pdf/esa/v11n4/a09v11n4.pdf

P.S.

Obrigado pelo apoio e incentivo, colega Gilberto.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 28 janeiro 2020 às 8:22

Boas dicas José Luiz! 

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 26 janeiro 2020 às 11:57

ÍMÃ DE AEDES

Geosmina atrai e estimula proliferação do mosquito

(O Globo, caderno Rio, Domingo, 26.1.2020, pág. 14)

Um estudo da Universidade de Lund, na Suécia, intitulado “Geosmin attracts Aedes aegypti mosquitoes to oviposition sites” (“Geosmina atrai o mosquito Aedes aegypti para locais de postura de ovos”) foi publicada na “Current Biology”, uma das mais importantes e respeitadas revistas científicas do mundo.

A consequência disso para nós aqui no Brasil e no Rio é que, mesmo que a água tratada pela CEDAE deixe de ter cheiro de Geosmina (ou de terra), devido à aplicação de carvão ativado, o esgoto que contamina os mananciais de onde a água bruta foi retirada, continuará a ser uma fonte em potencial de proliferação do mosquito transmissor de Dengue, Zika e Chicungunha.

Além disso, se a água de reservatórios domésticos (caixas d´água e cisternas) tiver cheiro de Geosmina, atrairá os mosquitos, e qualquer espaço livre nos mesmos será usado por eles para a colocação de ovos, que vão gerar novos mosquitos transmissores das doenças. Ainda bem que só a fêmea pica.

Os cientistas descobriram que existe na antena do mosquito, um receptor específico para detectar o odor da Geosmina, o que estimula o sistema reprodutivo das fêmeas a colocar ovos. Dentre as diversas substâncias que atraem o Aedes (como p. ex. a casca de beterraba, pois ela tem Geosmina), a Geosmina produzida pela bactéria Streptomyces coelicolor do Rio Guandu é a mais potente de todas.

É um mito achar que o mosquito gosta e precisa de água limpa. A fêmea do Aedes prefere água mais suja, porque as larvas se alimentam de cianobactérias e outros microrganismos presentes em ambientes ricos em nutrientes (Nitrogênio, Fósforo e Potássio, entre eles) encontrados no esgoto. O mosquito que gosta de água limpa é o Anopheles darlingi, transmissor da Malária e aquele mosquitinho Simulídeo chamado vulgarmente Pium (Simulium damnosum, que no Brasil só existe em Roraima mas é abundante na África), que causa a Oncocercose ou  Cegueira dos Rios e, juntamente com a Malária e a Febre Amarela, são as três doenças mais virulentas do mundo segundo a OMS, todas transmitidas por mosquitos. (*)

(*) http://www.ufrrj.br/institutos/it/de/acidentes/mosq.htm

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 25 janeiro 2020 às 10:33

MAIS INFORMAÇÕES sobre a qualidade da água, você encontra aqui mesmo, na Rede Agronomia:

http://agronomos.ning.com/profiles/blogs/qualidade-da-gua-1

Boa leitura.

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