Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Harmonia da natureza: Os solos estão doentes

A natureza é dinâmica. Constantemente ocorrem mudanças, buscando cada vez mais um equilíbrio entre todos os seus componentes, sejam eles animais, plantas, solo, água, etc.

Cabe ao homem entender toda esta harmonia e procurar, através do seu trabalho, mantê-la, copiá-la ou imitá-la.  A natureza, no entanto, requer adaptações segundo as caracteristicas de cada ecossistema, observando a característica das propriedades, dos agricultores e das culturas, sejam elas de grãos, frutas, hortaliças, etc.

A utilização intensiva da mecanização, de agrotóxicos, corretivos e adubos químicos solúveis, somada ao monocultivo, leva o solo a um estadio avançado de degradação e de  erosão e principalmente de compactação, redução da matéria orgânica e da atividade biológica, tornando estas lavouras cada vez mais exigentes em insumos e em geral menos produtivas.

A agricultura convencional é dita como sintomática, ou seja, decide o que deve ser feito depois que aparecem os sintomas.  Faz a adubação depois que a planta começou a amarelar.  Pulveriza um veneno depois que a praga já está instalada e causando problemas.  É também reducionista, já que vê cada fator de produção de maneira isolada, sem dominio das interrelações existentes, nem das relações causa-efeito.  Tenta-se atingir padrões ideais e formular receitas.  Mas isto é muito difícil já que a natureza nunca se repete.

A agricultura convencional é a responsável pela perda da capacidade produtiva dos solos.  O mais importante, é que ela não foi adequada à realidade cultural da dos nossos agricultores. 

O solo é um organismo vivo e, como em um só corpo, todos os elementos estão conectados.  Agir sobre um orgão pode prejudicar vários outros e mesmo matar o organismo como um todo.  Quanto se maneja de maneira não adequada o solo, adubando errado, pulverizando demais e não repondo a matéria organica, a vida microbiana do solo diminui ou acaba e o solo se torna estéril, ou infertil. Chama-se isto de erosão biológica, que leva o solo a ficar doente. É por isto que solo sádio é sinonimo de solo fértil, e fertilidade é um atributo de seres vivos.  Para solos, a fertilidade deve ser física, química e biológica.

Para evitar que os solos fiquem doentes ou para recuperar os solos já doentes é preciso assim promover uma transição, que deve ser gradual e definitiva, do sistema convencional para os sistemas alternativos existentes.

Isto provoca a mudança de uma série de paradigmas na agricultura.  É o fim da ideia que é preciso arar e gradear para preparar o solo para receber uma cultura ou pastagem.  É o ênfase na saúde da planta, ao invés da doença.  É buscar um solo de qualidade e com saúde para ter plantas mais sadias e produtivas.

A agricultura convencional busca o maior lucro, independente da sustentabilidade, pelo uso de produtos ou tecnologia.  Os sistemas alternativos, pelo contrário, busca o aprimoramento de processos, controlando as causas dos problemas e não os sintomas, tendo sempre a natureza como o modelo a ser observado e respeitado.

O resultado final dessas alternativas é evitar que o solo fique doente e deixe de produzir alimentos sadios, para animais e homens sadios.

Recuperar um solo é regenerar a sua fertilidade.  O primeiro passo é evitar a que o solo fique mais e mais degradado, deixando de utilizar práticas que destruam a matéria organica, a atividade biológica e a estrutura do solo.

Depois, passa-se a utilizar sistemas conservacionistas e regenerativos que sempre incluem a formação de cobertura do solo e adubação verde, o manejo dos restos culturais - mantendo-os sobre a superfície do solo, o uso de adubos de forma mais racional - seja a adubação organica (com esterco, compostos, biofertilizante, plantas de cobertura, etc.) ou a adubação química (escolhendo produtos adequados para a condição do solo), a rotação e a consorciação de culturas, a introdução de organismos – minhocas, micorrizas, bacterias fixadoras de nitrogenico, etc..  A velocidade do processo de recuperação depende do estadio de degradação do solo no inicio e da plena utilização das práticas em conjunto.

O solo será sadio quando a fertilidade for resistente às mudanças de clima e/ou o manejo das culturas (plantio, colheita, etc.).  Adubar o solo é mais importante que adubar a planta.  Controlar doenças é diminuir a possibilidade do inóculo agir, ao invés de matar o organismo.  Controlar uma planta invasora é promover meios físicos e alelopáticos de redução, além do controle químico.  Manejar o solo é manejar a matéria organica e a atividade biológica do solo, que, junto com as raízes das plantas é a ferramenta de preparo do solo.

Daí vem a importancia da diversidade biológica e vegetal para o solo.  A interação entre os organismos vivos presentes no solo – superficie e subsuperfície – fará o solo sadio e de qualidade e assim produzirá alimentos também sadios e de qualidade. 

O uso das culturas de cobertura em rotação, sucessão ou consorciação, por exemplo, permitem a diminuição de pragas, doenças e de plantas invasoras ou daninhas, através de processos naturais como o controle biológico, a alelopatia, o antagonismo biológico, a supressão física, entre outros.  As mesmas culturas agem profundamente no solo fornecendo matéria organica e alimento para os microorganismos e melhorando a estrutura, que significa maior porosidade, maior aeração, maior infiltração e retenção de água no solo, proporcionando um ambitente mais adequado para o desenvolvimento das plantas que irão produzir alimentos e fibras. 

Se não bastasse, as raízes seguram todos os nutrientes que se movem rapidamente no solo e que seriam desperdiçados, como o nitrogenio e o potássio.  Os nutrientes vão para as folhas das plantas de cobertura e, depois de mortas, vão se tornar adubo para as novas plantas em crescimento.  Um processo de ciclagem que imita o que acontece nas florestas.  Esse processo é ainda maior se o solo tiver alta infestação de micorrízas (fungos que se ligam às raízes em um processo de simbiose) e aos rizóbios (bactérias que vivem junto às raízes e que absorvem nitrogenio do ar.

A regeneração do solo não pará aí.  É preciso utilizar sistemas biológicos e mecanicos de controle da erosão, como terraços, plantio em nível, canais escoadores e, ter árvores plantadas em lugares importantes, como no lado das lavouras, evitando o vento excessivo (quebra-vento) e na beira dos rios, córregos e nascentes, protegendo a água.

No final, a saúde das plantas e a qualidade dos alimentos que vamos comer, depende da saúde do solo.  Assim, antes de curar as plantas devemos nos preocupar com o solo. Se o solo estiver sadio, as plantas estarão mais resistentes ao ataque de insetos e doenças e terão maior facilidade para concorrer com outras plantas invasoras.  O equilibrio existente em um solo sadio não deixa a planta apresentar deficiencias, ficando assim mais e mais resistente e sadia.

Exibições: 621

Comentar

Você precisa ser um membro de Rede Agronomia para adicionar comentários!

Entrar em Rede Agronomia

Comentário de PEDRO LUIZ DE FREITAS em 17 julho 2015 às 14:21

A existência de plantas invasoras nas entrelinhas de uma cultura significa que houve um grave erro de manejo.  O solo deve estar SEMPRE coberto.   Plantas vivas companheiras, como as de cobertura, ou resíduos de biomassa, palhada ou cobertura morta, devem estar presentes abafando o crescimento de plantas consideradas invasoras ou competidoras.   Essas, quando presentes, concorrem com a cultura principal em água, nutrientes ou luz.  Ou podem ainda prejudicar ou dificultar a colheita da cultura principal.   A mucuna é conhecida por dificultar a colheita de milho, por exemplo.   Obrigado pelo comentário

© 2021   Criado por Gilberto Fugimoto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço