Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

O SENSO DE URGÊNCIA E A NOSSA PROFISSÃO

Na entrevista de Pedro Parente, presidente da Petrobras, à revista Época Negócios (Março 2017, pág. 31), ele afirma o seguinte sobre o senso de urgência: "O tempo é o bem mais escasso de qualquer pessoa. Principalmente do governante. O espaço você pode ganhar ou perder. É uma lei da física. O tempo não. Você sempre perde. Isso se agrava em uma sociedade desigual como a brasileira".

Resumindo, ele disse basicamente 3 coisas:

1 - O senso de urgência é importante.

2 - Ele tem de ser muito grande.

3 - É um valor fundamental da gestão.

Lembrei-me então da questão dos esgotos na zona rural, sempre relegada à última instância, desde a Escola de Agronomia, e que nem sequer é um dos sub-ramos da nossa profissão. Veja, não é só o esgoto sanitário, haja vista nossa intensa urbanização. E (o grande volume das) as fezes dos bois, porcos, aves e outros animais, para onde vão?

Por falar em esgotos sanitários, outro artigo de Época Negócios (Fevereiro 2017, pág.84), do Eng. Florestal Tasso Azevedo, intitulado "Água 4.0, uma nova revolução", me chamou a atenção. Diz ele que num livro recente, o Eng. David Sedlak, da Universidade de Berkeley, cita 3 revoluções pelas quais passou o desenvolvimento de sistema de água em centros urbanos:

1) Inovação romana de captar água potável e despejar esgoto fora das cidades (algo como os arcos da Lapa, no Rio de Janeiro).

2) Tratamento da água para consumo, matando microrganismos patógenos (viva Pasteur !).

3) Implantação dos sistema de tratamento de esgotos (que não mudam a séculos).

Sedlak vê a necessidade de uma 4a. revolução, visando: o aumento da escassez e da contaminação e a dificuldade do acesso em algumas regiões do globo.

Existem várias iniciativas no mundo em busca de soluções para acelerar, baratear e simplificar o tratamento de água e esgoto. Nos EUA, a startup Janicki Bioenergy desenvolveu o Omniprocessor, uma usina onde de um lado entra esgoto e do outro saem energia, água potável e cinzas fertilizantes. Um arremedo pupiniquim é a nossa fossa biodigestora da Embrapa.

No Brasil, outra startup, MoOmi (água limpa, em Iorubá), desenvolveu um sistema ainda mais inovador, que separa a água das demais partículas do esgoto, usando ultrassom, sem utilizar produtos químicos ou decomposição bacteriana. O consumo de energia é apenas 10% do que consome o sistema tradicional, e os custos de implementação e operação caem pela metade. A primeira unidade operacional, para Q = 240 m³/h, já funciona em Ubatuba - SP. O mesmo sistema pode ser usado para dessalinizar água, com reduções no consumo de energia superiores a 95%. Por usar área menor e com capacidade de ser feita em diferentes escalas, pode viabilizar redes de coleta de esgotos menos complexas, facilitando a implementação da infraestrutura de saneamento básico.

Para coroar o texto, cito 2 números importantes do Tasso Azevedo: 2 kWh/m³ para tratar o esgoto doméstico e 4 kWh/m³ para dessalinizar a água do mar por osmose reversa (com filtros especiais e pressão hidrostática). Nos Emirados Árabes Unidos, que dessalinizam toda a água que bebem, não sei quanto custa, mas soube que usam o gás do petróleo para a sua destilação. Não seria uma saída para as cidades do litoral Rio - São Paulo (assim como os emissários submarinos) ?

De volta ao exercício da profissão, por que, em vez de ficarmos lamentando a perda de partes dela (para os Eng. Florestais, Agrícolas, Ambientais, Zootecnistas, Biólogos, Arquitetos, etc.), não nos dedicamos mais: à compostagem, ao biogás do esgoto, aos créditos de carbono, aos biofertilizantes, ao manejo ecológico do solo, à agricultura orgânica, às energias renováveis, etc. ? Que tal copiar da Justiça o Prêmio Innovare para o Saneamento Básico Rural ? E não esqueça, lá do início, do tal senso de urgência. Boa sorte. E coragem para mudar.

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Comentário de Francisco Lira em 29 março 2017 às 17:39

Agronomia deve ampliar sua area de atuação, mas nem por isso perder sua essência como profissão, afinal renuncia aos áreas de silvicultura, engenharia rural, produção animal e biológica significa o próprio fim da profissão. No mais é preciso lutar pela formação ampla e plena e o grande problema hoje que temos visto nas faculdade é a falta de formação e experiencia profissional dos docentes que por falta disso vivem a fazer agronomia de forma simbólica e restrita e com isso não podendo permiti aos futuros profissionais os desafios propostos pelo colega Jose Luiz.

Comentário de Raquel Moraes em 17 março 2017 às 15:59

Excelente reflexão! 

Comentário de Gilberto Fugimoto em 17 março 2017 às 8:45

José Luiz,

Muito bem, vamos insistir no tema e produzir debates!

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 17 março 2017 às 8:24

Eu tratei deste tema dia 7/1/2013 (veja blogs, pág. 27), mas não houve qualquer comentário. Sinal que não interessa aos colegas. Mas, como sou Taurino (insistente), volto ao assunto:

http://agronomos.ning.com/profiles/blogs/ramal-de-esgotos-sanit-rios

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