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Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Escolher o manejo que alcance maior eficiência e economia é vital para viabilidade da exploração pecuária. Quem planeja precisa ler este artigo.

No blog anterior, havia comentado que sempre considerei pastejo rotacionado uma opção mais eficiente e racional que pastejo contínuo. Entretanto o artigo "Rotational Grazing on Rangelands: Reconciliation of Perception and Experimental Evidence” (Pastejo Rotacionado: Reconciliação de Percepção e Evidência Experimental) derruba nossas crenças, conforme veremos a seguir.

É Possível Comparar?

O artigo destaca que a despeito de décadas de pesquisa experimental, aplicações comerciais e da esmagadora evidência dos dados contra o pastejo rotacionado, a falta de uma posição formal da pesquisa científica já mostra a complexidade da tarefa. 

Mas por que permanece a percepção e defesa do pastejo rotacionado como superior ao pastejo contínuo? A maior dificuldade recai sobre as muitas variáveis que pesam sobre os sistemas de pastejo, tornando a comparação entre sistemas é uma tarefa quase impossível. Assim, as variáveis ambientais (solos, topografia, capacidade de uso da terra, vegetação), climáticas (sazonalidade de chuvas, variação entre os anos), as diferentes raças de gado, se somam às diferenças de manejo (objetivos) e a gestão operacional desses sistemas (habilidade, comprometimento gerencial, disponibilidade de recursos).

Além disso, a capacidade de gestão raramente é um fator reconhecido e documentado, dificultando ainda mais separar o componente ambiental do sistema de pastejo. Considere ainda que sistemas de pastejo intensivo exigem gerenciamento mais sofisticado que sistemas mais simples. Isso conduz a uma percepção de que o comprometimento de manejo e habilidades de gestão são componentes fundamentais para a efetividade de um Sistema de Pastejo. 

Por que não mudamos?

A despeito dessa variabilidade de fatores, décadas de pesquisas demonstram dados consistentes contrários à percepção comum. Mas então por que continuamos a pensar em termos de pastejo rotacionado? Basicamente três grandes argumentos são frequentemente invocados, dos quais abordaremos os dois mais relevantes.

Dúvidas na Pesquisa

Podemos alegar que a pesquisa apresenta falhas, com parcelas muito pequenas que dificultam uma correta avaliação do sistema de manejo. Entretanto os estudos demonstram que parcelas menores são favoráveis ao P.R., pois há maior uniformidade na pressão de pastejo em áreas menores. 

Por outro lado, podemos questionar o tempo de acompanhamento das pesquisas. Se o tempo é muito curto, podemos subestimar o potencial de longa duração dos sistemas de pastejo. Porém, várias comparações entre P.R. e P.C. têm sido conduzidas por 8 a 25 anos sem documentar nenhuma mudança substancial na trajetória de resposta dos pastos e dos animais.

Além disso protocolos de pesquisa exigem que experimentos sejam estruturados de forma a minimizar a variabilidade ecológica e de gestão para testar efetivamente as hipóteses que melhoram nossa compreensão de processos ecológicos críticos em ecossistemas de pastejo. Assim, experimentos são mais rígidos para garantir integridade e repetibilidade experimental comparado a sistemas comerciais que são gerenciados adaptativamente.

O Fator Humano

O estudo aborda que ações de gestão interagindo com sistemas de pastejo são fonte de interpretações inconsistentes sobre os benefícios potenciais das tecnologias. É compreensível que objetivos e habilidades gerenciais venham a interagir de modo dinâmico e adaptativo nos sistemas de manejo em igual ou maior extensão do que os processos ecológicos. 

Entretanto, há uma dificuldade da pesquisa em considerar esse movimento gerencial dinâmico e adaptativo na busca de maior rendimentos. Os protocolos de pesquisa exigem que experimentos de pastagens sejam estruturados de forma a minimizar a variabilidade de gestão para testar efetivamente a hipótese que melhoram a compreensão de processos ecológicos críticos que operam em ecossistemas de pastoreio. Os requisitos dessas pesquisas não permitem que experimentos de pastoreio imitem necessariamente atividades de manejo visando metas de produção ou conservação na empresa de pecuária.

O estudo revela que os defensores do pastejo rotativo costumam se defender questionando a pesquisa experimental em vez de avaliar e quantificar os méritos de decisões eficazes de manejo e planejamento. Podemos então destacar que as contribuições gerenciais são fundamentais para sucesso dos sistemas de manejo, tanto quanto questões os demais fatores de produção. 

Podemos concluir então que a gestão e o controle da taxa de lotação do gado sobre as pastagens são fatores mais fundamentais para a viabilidade da exploração pecuária que a adoção de determinado sistema de manejo. 

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Comentário de Francisco Lira em 15 maio 2018 às 10:57

Excelente contribuição do colega ao tema proposto, isso com certeza satisfaz a postagem do colega Gilberto que buscar de forma primorosa elevar o nível de debate sobre essa importante área agronômica.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 14 maio 2018 às 21:05

Prezado Paulo Sérgio,

Agradeço a parabenizo o alto nível da sua contribuição!

Espero pontuar aos poucos a rica postagem e informações com as quais vc nos brinda na Rede Agronomia. Destaco os itens 5 e 6 que são pontos igualmente considerados no artigo citado. Aliás considera o estudo que uma das razões pelas quais o P.R. tem sido defendido é justamente "a necessidade crítica de promover o uso sustentável e a recuperação de pastos degradados pelo pastoreio excessivo. As altas taxas de lotação, comuns em final do séc XIX e início do sec XX, eram insustentáveis e as consequencias negativas dessas altas taxas de lotação não deveriam ser interpretadas como uma condenação do P.C. a taxas de lotação apropriadas" (grifo meu).

Espero falar ainda mais sobre outros aspectos abordados por vc!

abração

Comentário de Paulo Sérgio Freire de Carvalho em 14 maio 2018 às 19:09

Caro Gilberto,

Agradeço a disponibilização de seu artigo, que tem como base o artigo  "Rotational Grazing on Rangelands: Reconciliation of Perception and Experimental Evidence”. 

Diante desse assunto, gostaria de efetuar as seguintes ponderações:

  1. Iniciei a adoção do pastejo rotacionado há cerca de 30 anos, inicialmente, por influência da Embrapa, em piquetes de capim elefante. Posteriormente ampliei  para todas as pastagens;
  2. Durante este período observei que as melhores respostas, conforme a literatura já preconizava, ocorreram em piquetes com capins de hábito de crescimento cespitoso. Assim sendo, as respostas do pastejo rotacionado em áreas de capins de hábito decumbente, tendem a ser mais próximas do "semi - rotacionado" (evito utilizar o termo continuo, por entender que ele não ocorre "de fato" na maioria das propriedades brasileiras);
  3. Ao longo deste tempo que venho atuando como profissional, presenciei, gratificantes recuperações de áreas degradadas e/ou em processo de degradação, onde  o principal elemento de mudança foi o pastejo rotacionado;
  4. Constatei também que, se tirarmos o foco do crescimento da(s) gramíneas  e ampliarmos a visão para a disponibilidade forrageira e crescimento de outras plantas forrageiras, dentre elas, as leguminosas, o resultado tende a ser ainda mais significativo. Quanto maior a diversidade da pastagem em Gêneros e em Espécies, maior será a produção no médio/longo prazo, maior a sua resiliência, maior a sua longevidade, com menor requerimento de insumos externos;
  5. Para as condições brasileiras, temos uma realidade clara: o maior fator limitador da produção pecuária nacional é a degradação das pastagens;
  6. Por experiência própria, já constatei por inúmeras vezes que o pastejo rotacionado é um importante aliado na recuperação de pastagens degradadas;
  7. Por experiência própria, todo pecuarista sabe que pastagens viçosas produzem mais do que pastagens degradadas.
  8. Sob os princípios da Agroecologia, cada propriedade possui uma realidade própria, decorrente da interação única de fatores, nos quais o Produtor e suas crenças também fazem parte.

Para o dinamismo que caracteriza a produção agropecuária nos trópicos, não tenho dúvidas, que precisamos formar Técnicos com uma visão cada vez mais holística acerca do Universo Vivo que é uma propriedade rural, ao tempo em que, este mesmo Técnico tem que ter sólidos conhecimentos acerca de Gestão. Assim sendo, é importante que o técnico conheça em profundidade o leque de opções existentes e com base na realidade local estabeleça o melhor conjunto de ações para aquela propriedade específica, a qual pode divergir em muito da propriedade vizinha.

  1. Temos que nos libertar de qualquer tipo de Dogma, e tentar evitar julgamentos simplistas de valores, tipo o sistema A é melhor do que o sistema B.
  2. Cabe ao técnico saber avaliar resultados, enxergar o funcionamento do “Sistema”, sabendo a importância de cada uma das engrenagens como um todo e efetuar prontamente eventuais correções de rumo, que se façam necessárias. Nesse contexto, é possível constatar que os “pacotes tecnológicos” já nascem com seus “prazos de validade” vencidos.

Diante dos itens que relatei, convido-o a refletir acerca de 02 aspectos:

- presenciamos nos últimos tempos inúmeras idas e vindas das recomendações da pesquisa, ora “santificando” alguns produtos, ora “demonizando” os mesmos produtos a exemplo de: café, ovo, manteiga e outros tantos;

- a pesquisa de um modo geral tem dificuldade em conduzir experimentos com múltiplas variáveis simultâneas. Quando reduzimos os resultados a um só item, como neste caso ao Pastejo Rotacionado, podemos estar reduzindo o Ecossistema que é a pastagem (resultante da interação de milhares de espécies de organismos do solo, de plantas e de animais) a uma realidade tão pobre como tentar estabelecer um único manejo adequado para os animais da Terra, lembrando que o elefante, a baleia e a formiga, fazem parte deste mesmo grupo.

Gilberto, mais uma vez parabenizo-o por suscitar tão saudável discussão, Abraço Grande,

Paulo Sérgio Carvalho.

 

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