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Estamos perdendo tempo (e dinheiro) na formação de piquetes?

Leia este artigo antes de investir em pastejo rotacionado.

Sempre considerei o pastejo rotacionado como uma alternativa mais técnica e racional de aproveitamento das pastagens. Uma gestão mais racional com um período de descanso, proporcionado pela rotação em piquetes, fundamental para melhor aproveitamento da forragem alcançando maiores produtividades.

Entretanto, o artigo Rotational Grazing on Rangelands: Reconciliation of Perception and Experimental Evidence” (Pastejo Rotacionado: Reconciliação de Percepção e Evidência Experimentalacaba com nossa certeza sobre pastejo rotacionado. Produzido por 9 pesquisadores norte americanos o estudo faz uma revisão de 47 trabalhos comparando métodos de manejo em várias partes do mundo e em diferentes dimensões de parcelas (0,5 a 1.979 ha) desenvolvidos nos últimos 60 anos.

Não há vantagem no Pastejo Rotacionado

Analisando o conjunto da pesquisas, os autores concluem: Não há evidência experimental que justifique o Pastejo Rotacionado!

Para embasar a afirmação, o gráfico apresentado agrupa os experimentos levantados, em 3 categorias:

  • A) pressões de pastejo contínuo (CG) iguais ao do pastejo rotacionado (RG);
  • B) pressões de pastejo contínuo (CG) menor que a do pastejo rotacionado (RG);
  • C) todas pressões de pastejo;

Fonte: Briske et al., 2008

As conclusões resumida pela figura acima demonstra:

A) Experimentos com taxas de lotação semelhantes (CG=RG):

  • Em 89% dos experimentos não houve diferença na produção de massa verde entre Pastejo Rotativo e Pastejo Contínuo;
  • 57% dos experimentos não apresentaram diferenças na produção animal per capta entre P.R e P.C.enquanto 36% maior produção per capta no Pastejo Contínuo;
  • 57% dos experimentos não apresentaram diferenças na produtividade animal por área entre P.R e P.C.enquanto 36% maior produção per capta no Pastejo Contínuo (como no exemplo anterior);

B) Pesquisas com taxas de lotação de Pastejo Contínuo menores que Pastejo Rotacionado (CG<RG):

  • Em 75% dos experimentos não houve diferença na produção de massa verde ou melhor desempenho para Pastejo Contínuo;
  • 90% dos experimentos não apresentaram diferenças na produção animal per capta ou melhor desempenho para Pastejo Contínuo;
  • Neste caso, 75% dos experimentos foram favoráveis ao Pastejo Rotacionado na produtividade animal por área

C) Comparando todas as taxas de lotação (All Stocking Rates)

  • Em 83% dos experimentos não houve diferença na produção de massa verde entre Pastejo Rotativo e Pastejo Contínuo;
  • 50% dos experimentos não apresentaram diferenças na produção animal per capta  e 42% apresentaram melhor desempenho para Pastejo Contínuo;
  • 50% dos experimentos não apresentaram diferenças na produção animal por área  e 34% apresentaram melhor desempenho para Pastejo Contínuo;

“Estes dados experimentais demonstram que existe um conjunto de estratégias de pastejo potencialmente eficazes, nenhuma das quais possui propriedades únicas que a diferenciam em relação à eficácia ecológica.”

A defesa permanente do pastoreio rotativo como uma estratégia superior de pastejo é baseada na percepção e interpretações anedóticas (!!), ao invés de uma avaliação objetiva da vasta evidência experimental. Recomendamos que essas conclusões baseadas em evidências sejam explicitamente incorporadas às decisões de gestão e políticas que abordam esse uso predominante em pastagens.”

Surpreso? Eu também! Mas as conclusões acima, nos levam a algumas questões:

Por que então o Pastejo Rotacionado vem sendo indicado?

Na próxima postagem espero comentar as razões apresentadas no artigo para a persistência na defesa dessa prática de manejo.

Portanto, se não há diferença entre pastejo contínuo e pastejo rotacionado, cabe a questão:

Vale a pena investir R$ 15.000 / Km em piquetes para pastejo rotacionado?

Ao contrário do que se possa imaginar, a pesquisa abre possibilidades e soluções que podem ser muito mais econômicas e com níveis de produtividades semelhantes. 

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Comentário de Jurandir Melado em 15 abril 2018 às 14:33

Caro Francisco Cezar Dias, 

com todo respeito, afirmo que dizer que o Pastoreio Voisin não deu certo demonstra ou falta de conhecimentos sobre o assunto ou má fé.  Concordo que possa haver simpatias ou antipatias em relação a esta ou aquela tecnologia.  E entre os admiradores do Pastoreio Voisin e os adeptos do "Pastejo Rotacionado", existe uma demanda de muitos anos... Concordo também que algumas experiências com o Pastoreio Voisin podem ter resultado em fracasso, como ocorre com qualquer tecnologia, em vista das inúmeras variáveis que devem ser consideradas. No caso do Voisin, a causa mais comum de fracasso é a falta de envolvimento do proprietário. Sem um adequado envolvimento do proprietário é praticamente impossível obter sucesso com o Pastoreio Voisin, pois um projeto Voisin não pode ser considerado um "pacote tecnológico", aplicável em qualquer situação de forma exatamente igual. As regras do Pastoreio Voisin (Leis Universais) são genéricas e devem ser adaptadas à situação de cada propriedade.

A excelente matéria apresentada no link a seguir, é um exemplo do vigor crescente do Pastoreio Voisin:

http://www.beefpoint.com.br/a-pecuaria-e-atividade-rentavel-e-ecolo...

Outra prova de que o Pastoreio Voisin está dando certo e muito, foi a realização em agosto de 2017 do VII Encontro de Pastoreio Voisin, em Maceió AL, que reuniu mais de 500 participantes de 23 estados brasileiros e de 7 países, com inúmeros exemplos de sucesso do Pastoreio Racional.  A Revista DBO - Edição de setembro de 2017 traz uma magnífica reportagem sobre este encontro, com o título: Pastoreio Voisin: Paixão que dá lucro...  Maceió foi escolhida para sediar o Encontro de Pastoreio Voisin, porque o PV é a base do "Programa mais pasto" implementado pela Federação da Agricultura de Alagoas que está sendo um grande sucesso!

Convido o Sr. Francisco e outros céticos, a pesquisarem no Google sobre o Pastoreio Voisin e analisarem com isenção as matérias que serão apresentadas em grande quantidade...

Grande abraço a todos e bom final de domingo!!

Comentário de Gilberto Fugimoto em 14 abril 2018 às 12:01

Ola Jurandir,

Agradeço suas contribuições e a oportunidade de compartilhar parte de sua experiência com Sistema Voisin e manejo de ecológico de pastagens no cerrado. 

A ideia do blog é justamente promover o debate fraterno e respeitoso a partir referências conceituadas que contrariam o senso comum e apresentar diferentes visões que possam contribuir para ampliar o leque de opções ao manejo de pastagens.

Entretanto, vc citou um aspecto importante seja em P.C. ou P.R. que é observar a taxa de lotação baseado em sua capacidade de suporte.

abração

Comentário de Francisco Cezar Dias em 14 abril 2018 às 9:25

Com 37 anos de atuação com pastagens e os últimos 15 anos tentando integrar lavoura-pecuária, contribuí em muito com esta atividade. E digo uma coisa, enquanto os paradigmas não caírem, dificilmente se conquistará todos os benefícios que esta associação permite.

Por exemplo, o agricultor entra para esta atividade falando que pecuária é coisa de vagabundo. O pecuarista diz que nasceu na atividade e nunca ganhou dinheiro, como é que gastando este dinheirão vai ganhar dinheiro. Bem vindo a realidade senhores. Agora, ficar lendo estas pérolas de colegas de profissão, garante a nós um futuro negro para as próximas gerações.

Comentário de Francisco Cezar Dias em 14 abril 2018 às 9:17

Voisin não funcionou no Brasil na década de 80 por isto adaptamos e criamos o "ROTACIONADO".

O Km de cerca elétrica com poste de eucalipto e 2 fios fica 50% da convencional com 5 fios.

O Jurandir, no Centro Oeste existe pastejo extensivo (independente da divisão de pasto) e pastejo rotacionado. Em qualquer um, adapta-se o número de piquetes de acordo com as características sócio-econômicas da propriedade visando o retorno "FINANCEIRO". O resto, bem, o resto é trelelê.

Comentário de Jurandir Melado em 13 abril 2018 às 13:41

Outra coisa importante é que nos projetos de Pastoreio Voisin, se usa a cerca elétrica, que custa de 10 a 15 % de uma cerca convencional de arame liso com 5 fios...

Comentário de Jurandir Melado em 13 abril 2018 às 13:39

Acho estas conclusões deste estudo muito tendenciosas, já que tratam de apenas uma ou duas variáveis, das inúmeras que são afetadas quando se usa uma forma de manejo diferente.

Outra coisa, é a imprecisão, pois na como "pastejo rotacionado", entende-se qualquer sistema de pastoreio rotativo simples, com 3 piquetes ou mais...

Apenas para recordar... Temos o Pastoreio Contínuo, onde os animais ficam sobre a mesma parcela por um período indefinido,  temos o Pastoreio Alternado, onde os animais alterna-se entre duas parcelas.  A partir de 3 parcelas, já teríamos um sistema Rotativo Simples... 

A grande diferença (acúmulo de vantagens) ocorre, quando em um sistema com um número  adequado (leia-se: elevado) de  parcelas, sejam atendidas as 4 "Leis Universais do Pastoreio Racional", principalmente as duas primeira: LEI DO REPOUSO e LEI DA OCUPAÇÃO, que é o que diferencia os sistemas de pastoreio rotativo simples do Pastoreio Voisin, que em qualquer comparação, se revela o melhor sistema de manejo de herbívoros à campo já formulado.

Comentário de Hugo Celso Coelho em 12 abril 2018 às 11:27

Sem dúvida, rotação de pastagem e melhor para dar descanso as plantas.

Comentário de Manoel José Sant´Anna em 11 abril 2018 às 11:05

Bom dia colegas, vejo que este assunto é matéria para muitos debates!. Rodrigo, você parece ter algum conhecimento sobre Zootecnia, e seus argumentos são precisos, poderia ampliar, se permitir, em dizer que outro fator prático da degradação do pastoreio intensivo, é na própria genética dos animais, as fêmeas, pastam mais em rebole iras, e os machos pastam mais uniforme. Isto já mostra degradações diferentes. Observação de campo. 

Comentário de Rodrigo P. Louzada em 11 abril 2018 às 9:53

Bom dia amigos. Na pesquisa fala-se muito em ganho de peso animal e produção de massa verde, mas me parece que deixam passar um importantíssimo fator tanto econômico quanto ambiental que é a degradação das áreas, que certamente, no pastejo extensivo será maior. Outro ponto a ser observado é a lotação de UA por área, que indiscutivelmente é maior nas áreas de pastejo intensivo.. Ao meu ver, tratando-se da prática em campo, o pastejo rotacionado é muito mais vantajoso. Abraços.

Comentário de Manoel José Sant´Anna em 9 abril 2018 às 12:19

Completando!. Produzir alimentos!!!!??. O que mais nos compete neste nosso imenso Brasil???!!. Tempos enormes áreas agricultáveis!. Temos enormes áreas para pastagens ( embora possa ser melhor aproveitadas), Temos agora uma imensa nação para alimentar com força de escambo, pela sua importância hoje na síntese de moléculas de química fina, tecnologia que não temos, a CHINA, sem esquecer a Índia, só os dois tem metade da população do mundo!. E somos capazes de produzir tudo que precisam, somos capazes de suprir o que falta para alimentar todos eles !.

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