Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Uma conceituada revista (*) de São Paulo dá a resposta.

Você concorda, ou teria algo a acrescentar ?

(*)

http://www.revistadae.com.br/novosite/noticias_interna.php?id=10493

12 de Novembro de 2014 

Por que está acabando a água? 

Nicole B. L. Sigaud. 

Desde que as primeiras estradas rasgaram a floresta Amazônica para permitir a colonização, há pelo menos quatro décadas, a floresta vem sendo desmatada. Atualmente a área da floresta foi reduzida em 20% da área original, uma área maior do que França e Alemanha juntas. O desmatamento ocorre principalmente para a abertura de pastagens para o gado (78%) ou áreas agrícolas (especialmente para a cultura de soja), para o corte de árvores, destinadas ao comércio ilegal de madeira, para assentamentos humanos em função do crescimento populacional na região e abertura de estradas. 

A Amazônia bombeia para a atmosfera a umidade que vai se transformar em chuva nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, principalmente as chuvas que ocorrem no verão (de longa duração), que são as responsáveis por recarregar os principais reservatórios da Região Sudeste. Isso acontece devido à existência da Cordilheira dos Andes, que barra a umidade trazida do oceano pelos ventos e que acaba caindo na forma de chuva, fornecendo as condições ideais para a existência da floresta. As raízes das árvores sugam a água da terra, e pela transpiração uma árvore bombeia diariamente uma média de 500 litros de água para a atmosfera. 

A Amazônia inteira é responsável por levar 20 bilhões de toneladas de água por dia do solo até a atmosfera, 3 bilhões de toneladas a mais do que a vazão diária do Amazonas, o maior rio do mundo. Toda essa água bombeada para o ar forma os chamados “rios voadores”, dos quais inclusive se tem registro em filmagens. 

Para comprovar esse dado, basta observar que nas mesmas latitudes do planeta tudo é deserto, menos na América do Sul, pois a tendência dos ventos que vêm dos oceanos é atravessar o continente, de uma ponta à outra. Porém neste caso, os ventos ao esbarrarem na cordilheira, desviam para o Sul. 

Contudo, além de estarmos reduzindo a quantidade de árvores que realizam essa função na Amazônia, o que resulta em uma diminuição da umidade que é trazida pelos ventos, no estado de São Paulo, a devastação da Mata Atlântica permite a formação de uma massa de ar quente na atmosfera, que é tão densa, que bloqueia a chegada dos “rios voadores”, já enfraquecidos. Estes ficam represados no céu e acabam desaguando no Acre e em Rondônia, onde foram registradas este ano as maiores enchentes da história. 

s chuvas quando acontecem em nossa região encontram solos desprotegidos, devido à devastação da vegetação ou impermeabilizados por concreto e asfalto nas cidades. O solo desprotegido acaba sofrendo, ao longo do tempo, compactação pela expansão e contração, provocada pelo umedecimento (chuvas) e secamento (exposição solar). 

Outro fator que gera a compactação do solo é o pisoteio, principalmente do gado nas pastagens e tráfego de máquinas agrícolas e outros veículos. A compactação do solo prejudica a formação das raízes das plantas, dificulta a infiltração da água das chuvas, que abastece os lençóis freáticos, além de favorecer a erosão provocada pelas chuvas, que é o deslocamento de terra devido ao impacto da água. Essa terra solta acaba sendo arrastada pelas águas, que não se infiltraram no solo, para dentro de rios, alterando completamente as características químicas da água. E se o rio sofrer um assoreamento intenso pode secar totalmente, assim como acontece quando se joga mais terra do que água em um balde com água. 

Quando se tem plantas (árvores são as que melhor desempenham essa função) protegendo o solo, as folhas e galhos amortecem o impacto da água, e as raízes envolvem a terra mantendo-a firme, evitando a erosão. A água escorre pelos troncos até atingir as raízes, que abrem espaço na terra para a passagem da água, além de fornecer matéria orgânica que é o alimento para os “moradores” do solo (minhocas, insetos e outros), que também abrem túneis para a passagem de água. As raízes absorvem grande parte da água e também a liberam gradativamente, funcionando como filtros vivos, que retiram, isolam ou inativam contaminantes e recarregam os aquíferos, garantindo o abastecimento contínuo das nascentes. 

Com a redução da vegetação, a água das chuvas que não infiltra no solo causa enchentes e enxurradas, percorrendo a superfície do solo até ser direcionada para um rio. Quando o rio recebe um intenso volume de água, ocorre o transbordamento e as águas podem atingir tamanha força que podem seguir destruindo tudo pela frente, um exemplo disso é o crescente número de casos de mortes por trombas d’água nos últimos anos. E como os rios seguem em movimento, sendo seu destino o mar, esse volume monstruoso de água passa rapidamente pelas cidades, sem que haja tempo para aproveitá-las. 

A maioria das espécies que compõe nossa alimentação hoje em dia não é nativa do Brasil, das 20 frutas mais consumidas somente 3 são nativas, isso sem falar em verduras e hortaliças. Grande parte não é nem do nosso continente, são espécies originárias de outro clima e ambiente. Tomemos como exemplo a alface e o gado, que não são nativos do Brasil, mas são alimentos muito consumidos aqui. 

A alface é uma planta que em climas quentes como o nosso, precisa ser irrigada diariamente, em dias de verão pode precisar ser irrigada até mais de uma vez por dia. Enquanto cultivamos a alface, outras plantas que também são comestíveis crescem espontaneamente em nossa terra, mas são consideradas daninhas, pois concorrem com as exóticas (não nativas) que insistimos em plantar. Então arrancamos e destruímos o que é natural da nossa terra, porque queremos cultivar aquilo que cresce na terra dos outros. Sendo que o que é nativo é adaptado ao nosso clima, solo e regime de chuvas, não exigindo assim gasto de água, adubos químicos e agrotóxicos. Já o gado é nativo de uma região mais árida, onde não há floresta, então como queremos criar gado destruímos nossas florestas, para formar pastos e deixar o ambiente aqui similar ao de onde ele veio. 

Esses e outros exemplos demonstram nossa grande desconexão com a natureza, além disso, utilizamos excessivamente água, adubo e agrotóxicos, para fazer espécies vegetais que são de época, produzindo fora de época. Nem conhecemos mais a época dos alimentos. Estamos indo totalmente contra as leis da natureza. 

Precisamos expandir nossa visão, fomos ensinados a enxergar apenas as partes e estamos cegos para o todo. Por mais que custemos a aceitar, a realidade é: repensar nossa alimentação e postura como consumidores é a atitude mais importante, se quisermos economizar água. 

A responsabilidade é nossa, os consumidores são quem direcionam o mercado. A agricultura e a indústria existem para abastecer a nossa demanda, se as pessoas passarem a consumir menos determinado produto, sua produção passa a ser menos lucrativa e então o produtor vai procurar uma atividade que seja mais lucrativa. Se as empresas ou indústrias que estão adotando medidas mais sustentáveis tiverem um destaque maior no mercado do que as demais, a tendência é que as demais queiram seguir a mesma linha. 

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Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 5 dezembro 2014 às 14:47

ALTERNATIVAS PARA A SECA

http://www.revistadae.com.br/novosite/noticias_interna.php?id=10579

JOÃO,

quanto às membranas, de fato, elas são comuns no NE, mas não sei o seu custo. Sei que são importadas e, por isso, são caras, embora haja brasileiros (aqui no Sudeste) que dominem a sua tecnologia.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 27 novembro 2014 às 16:12

Ola João,

Quem citou o sistema de membranas filtrantes foi José Luiz que postou este blog.

abração

Comentário de João Ferreira da Silva Junior em 27 novembro 2014 às 15:06

Dr. Gilberto o senhor citou as membranas filtrantes da osmose reversa. Bem eu conheci um sistema deste numa comunidade no sertão da BA, infelizmente o projeto não deu continuidade, terminando abandonado. Não sei dizer se houve falta de interesse do poder público em monitorar o sistema ou se realmente o custo das membranas eram elevados como a comunidade alega. Gostaria de ter ideia do custo médio de manutenção deste sistema. 

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 27 novembro 2014 às 13:32

PURIFICADOR MOVIDO À ENERGIA SOLAR

(Criado por startup)

https://www.youtube.com/watch?v=UaaI1jXhh_k&feature=player_embe...

Comentário de Gilberto Fugimoto em 25 novembro 2014 às 11:11

Caro José Luiz e colegas,

Acho que teremos nos próximos anos um esforço de recuperação de áreas degradadas especialmente em relação a preservação de mananciais e matas ciliares, um campo de trabalho em crescimento.

Esse já era o desafio há 34 anos atrás, só ficou mais urgente!

abração

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 24 novembro 2014 às 9:12

Gilberto,

Bastante oportuna a sua chamada. Veja que ela 'cai como uma luva' no texto da imagem (das fendas no chão de um reservatório) que ilustra este tópico: "Só percebemos o valor da água depois que a fonte seca". Já observou também como tenho chamado aqui a atenção para a água da chuva ? Não sei porque os colegas acham que ela não é potável. Outro detalhe: Rio e São Paulo são estados litorâneos, onde não devemos descartar a dessalinização da água do mar para consumo, seja através da destilação tendo como fonte de energia calorífica a queima do gás do petróleo (que ambos produzem) ou através da passagem da água salgada por membranas filtrantes da osmose reversa (cuja tecnologia também dominamos). Vamos continuar insistindo na motivação dos técnicos e gestores pois, como sabemos também, 'Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura'.

Um abraço.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 24 novembro 2014 às 8:51

Ola José Luiz,

Veja que a falta d'água em São Paulo (e no Sudeste?) era "tragédia anunciada". Pena que só se ouve conselhos técnicos depois das crises.

Um alerta de 1977 para a crise da água

“Água de São Paulo está no fim, diz Nogueira Neto” foi o título de uma reportagem da Folha há 37 anos. A matéria, na edição de 25 de maio de 1977 (Primeiro Caderno, pág. 12), noticiava o alerta de Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e titular da Sema (Secretaria Especial do Meio Ambiente), do governo federal, que comandou de 1974 a 1986.

Nessa reportagem, o então secretário federal destacou São Paulo e Belo Horizonte como “exemplos típicos de má utilização da água doce” no Brasil. Ele afirmou que as duas cidades deveriam “cuidar urgentemente da preservação de seus recursos hídricos”, ressaltando que a situação da capital paulista era “particularmente delicada”, pois os mananciais que a abasteciam já naquela época seriam posteriormente necessários para atendimento à região metropolitana que começava a se formar em Campinas. E acrescentou:

“E, talvez, antes do final do século, São Paulo terá que se abastecer com água transportada do vale do Ribeira.”

Reportagem da Folha de 27 de maio de 1977. Imagem: Acervo Folha/Reprodução

Reportagem da Folha de 27 de maio de 1977. Imagem: Acervo Folha/Reprodução

Omissões

Passados esses 37 anos, São Paulo nunca adotou uma política para uma verdadeira utilização racional de seus recursos hídricos, não impediu nem reverteu a invasão e o adensamento populacional de áreas de proteção de mananciais e teve resultados pífios na redução do elevado nível de perdas de água no seu próprio sistema de distribuição.

Para agravar ainda mais esse quadro, o governo de São Paulo não realizou as obras do sistema de produção São Lourenço (SPSL) para a entrada em operação a partir de 2015, prevista desde a década passada. Os riscos desse atraso não só para o abastecimento da metrópole, mas também para a integridade dos sistemas Guarapiranga e Cantareira foram previstos também no estudo de impacto ambiental elaborado em 2011 para o São Lourenço.

“Caso o SPSL nem outro novo sistema produtor sejam implantados, o cenário prospectivo é de déficits crescentes no Sistema Integrado, e a permanência ou piora da regularidade de abastecimento nas zonas oeste, sudoeste e norte/noroeste da metrópole, (…) e maior stress no uso dos Sistemas Guarapiranga e Cantareira. (…) Os reservatórios tenderão a operar com menor volume de reserva e, ocorrendo condições hidrológicas desfavoráveis (não necessariamente críticas), a possibilidade de um colapso no abastecimento será maior, e o esquema de rodízio deverá ser adotado de modo generalizado na metrópole.”

Mais do mesmo

No entanto, as “condições hidrológicas desfavoráveis” começaram a ser críticas já no final de 2013. O governo federal também tem sua parcela de responsabilidade por todo esse quadro, uma vez que a ANA (Agência Nacional de Águas) poderia ter exigido de São Paulo medidas severas nas renovações da outorga do sistema Cantareira.

Ainda ontem, a recém-criada Aliança pela Proteção da Água divulgou notacriticando as medidas anunciadas pelo governo estadual, destacando os seguintes pontos.

  • O conjunto de intervenções apresentado não resolve a crise atual, é fazer mais do mesmo, ou seja, novas e caras obras que não contemplam medidas estratégicas para criar segurança hídrica.
  • Até o momento não foi apresentado um plano de contingência que demonstre como vamos chegar em abril de 2015 em situação segura para encarar o próximo período de estiagem.
  • Não foi feita qualquer menção sobre recuperar e cuidar dos mananciais existentes (restauração florestal, ampliação de parques, pagamentos por serviços ambientais)

Imediatismo

O alerta do titular da Sema em 1977 não foi o único  desde aquela época. Foram frequentes avisos de outros especialistas, principalmente de um dos maiores estudiosos dos recursos hídricos do Brasil nas últimas décadas do século passado, o geólogo Aldo da Cunha Rebouças (1937-2011), também professor da USP.

Telefonei na manhã desta quinta-feira (13) para Paulo Nogueira Neto —hoje com 92 anos e aposentado da USP—, e perguntei a ele por que o poder público costuma agir como se ignorasse alertas baseados na ciência. Ele apontou dois motivos: “imediatismo e economia malfeita de recursos”.

Apesar de tudo isso, o governo de São Paulo ainda insiste na retórica de que “garante” o abastecimento até março de 2015, minimizando o prejuízo para a integridade dos demais sistemas de produção de água, apontado também no próprio estudo de impacto ambiental do sistema São Lourenço.

Fonte: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2014/11/13/um-alerta-de...

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 23 novembro 2014 às 10:29

CHOVE CHUVA

(Conheça mais sobre essa dádiva que 'cai do céu', literalmente):

http://www.ebanataw.com.br/roberto/chuvas/nuvens.htm

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 22 novembro 2014 às 9:44

JAPONESES NOS ENSINAM A DESSALINIZAR

(A ÁGUA DO MAR)

E, de quebra, gerar energia. Li aqui:

http://www.revistadae.com.br/novosite/noticias_interna.php?id=10517

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 21 novembro 2014 às 14:05

Gilberto,

Mais uma vez, grato pelo incentivo. Voltando à questão do desperdício de água, se sabemos como economizar, como reza o ditado, 'estamos coma a faca e o queijo na mão'. Quanto à mudança, mais dois ditados: 'água mole em pedra dura, tanto bate até que fura' e 'de grão em grão a galinha enche o papo'. Vamos aguarda que, pelo menos uma o povão adote.

Um abraço cordial.

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