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Princípios e critérios para adotar o Sistema Plantio Direto

Princípios e critérios para adotar o Sistema Plantio Direto[1]

Autores:  Pedro Luiz de  Freitas (Embrapa Solos, Rio de Janeiro) e, Alberto Carlos Campos Bernardi (Embrapa Pecuária Sudeste, São Carlos, SP)

 O objetivo é descrever, em detalhes, os princípios visando alcançar a sustentabilidade do Sistema Plantio Direto (SPD), assim como os critérios que devem ser observados quando da sua adoção. 

Razões para a adoção do SPD

A degradação acelerada dos recursos naturais (solo, água, ar e biodiversidade) é uma das principais conseqüências da utilização intensiva das terras através do uso de sistemas de manejo não adaptados à nossa realidade edafoambiental.  Isto significa uma dificuldade em alcançar a sustentabilidade dos sistemas de uso e manejo e representa, igualmente, prejuízos aos recursos hídricos e a natureza, pela sedimentação e poluição de mananciais hídricos, e para o produtor rural, uma vez que as perdas de solo e de água significam custos de replantio, perdas diretas de sementes, defensivos agrícolas, nutrientes e de matéria orgânica. 

Os sistemas considerados convencionais, como o preparo intensivo do solo com o uso de arados, grades e subsoladores, além de exigir o uso cada vez mais intenso de fertilizantes, corretivos e pesticidas, são os responsáveis pela degradação física, química e biológica do solo.  A conseqüência é a pulverização excessiva da camada arável, o encrostamento superficial, a formação de camadas compactadas, a perda da capacidade produtiva, a redução da matéria orgânica e da atividade biológica.  Buscando um sistema de manejo mais adequado às condições edafoclimáticas tropicais e subtropicais, incorporando o conhecimento adquirido pela pesquisa agropecuária brasileira e se espelhando na experiência bem sucedida de agricultores e técnicos, o Plantio Direto tem sido adotado na busca da sustentabilidade da atividade agropecuária.

Por incorporar princípios holísticos e agroecológicos aos princípios básicos de não revolver o solo, de rotação de culturas e de manutenção da cobertura viva ou morta do solo, buscando o equilíbrio ecológico, o Sistema Plantio Direto (SPD) agrega opções que tem sido objeto de intensos estudos e várias experiências práticas nos últimos anos.  Entre essas opções temos a utilização de maneira integrada da adubação verde, de adubação orgânica, do manejo integrado de pragas e doenças, do manejo racional de plantas invasoras, do manejo dirigido do pousio, do papel de espécies arbóreas como sistemas agroflorestais e de quebra-ventos, do uso de fontes naturais de nutrientes (fosfato natural, pó de rochas, etc.), do papel da atividade biológica no manejo do solo.  Por ser um sistema de manejo que imita a natureza, o SPD dispensa a utilização de condicionadores de solo, por preservar a atividade microbiológica do solo.

A decisão do agricultor em adotar o SPD tem como razões principais o controle da erosão, a melhoria do solo pelo aumento da matéria orgânica e da atividade biológica, a possibilidade de cumprimento do cronograma de plantio, a menor exigência de potencia em maquinas, com menor numero de operações e redução no custo de manutenção de implementos, acarretando na redução no consumo de combustível.  Inclui também aspectos administrativos como a melhor utilização do tempo disponível, a maior competitividade e eficiência na atividade, e a sustentabilidade da produção.  No entanto, a diminuição de custos, a melhoria da produtividade e a melhoria da qualidade de vida são as razoes principais que levam agricultores em todo o país a adotar o SPD.

Para a sociedade como um todo, o esforço de agricultores e técnicos em adotar o SPD significa a redução no assoreamento e na poluição dos mananciais hídricos, menores riscos de enchentes, maior recarga dos aqüíferos, proporcionando mais água para os períodos de seca e um menor custo no tratamento das águas para consumo humano, além da redução de despesas com a manutenção de estradas vicinais. Para o ambiente, significa uma redução na emissão de gases pela diminuição do uso de combustíveis e o seqüestro de carbono na palha e no solo e a proteção à biodiversidade e à vida selvagem.  Finalmente, significa a sustentabilidade da produção agrícola, maior segurança alimentar, melhor qualidade de vida no campo e na cidade.

O sucesso na adoção do SPD está em, inicialmente, respeitar os princípios e critérios que fundamentam o sistema desde o início. 

Princípios básicos para a adoção do SPD

O SPD é definido como aquele no qual a implantação da cultura é feita sobre restos de culturas anteriores com a rotação de culturas, sem qualquer movimentação do solo, restrita somente à linha ou local de semeadura ou plantio.  O sistema ideal é aquele que integra tecnologias visando a redução de custos e a qualidade ambiental, permitindo interações biológicas e processos naturais benéficos  no solo.  Em resumo, o sistema deve permitir a exploração do potencial genético das culturas com o menor impacto ambiental negativo.  Por incorporar princípios agroecológicos, o SPD proporciona as condições ideais para o crescimento das culturas ao mesmo tempo em que promove a qualidade ambiental, assim, por ter seus princípios centrados na natureza, o sistema não admite receitas ou pacotes tecnológicos.  As práticas e processos utilizados são adaptados a realidade socioeconômica observada, levando em consideração os aspectos culturais de maneira holística. Mesmo em sistemas agrícolas altamente dependentes de insumos, o SPD permite a otimização da eficiência de fertilizantes e pesticidas e a utilização plena de conceitos agroecológicos de produção na busca de um sistema de manejo verdadeiramente orgânico.  Isto permite a produção de alimentos com menores custos e com qualidade ambiental, baseado na regeneração da dinâmica da matéria orgânica e da atividade biológica, mitigando a erosão biológica dos solos tropicais e subtropicais.

As exigências requeridas na adoção do SPD incluem aspectos como o maior profissionalismo, seja do agricultor, do administrador e dos técnicos, assim como de tratoristas e operários rurais, com uma maior dedicação à atividade e a busca de conhecimento sobre o sistema com a consulta a especialistas e a troca de experiências com outros agricultores.  Requer também um bom conhecimento das características da propriedade, mapeando solos quanto a sua aptidão, sua fertilidade física e química, incidência de plantas invasoras, erosões, problemas de drenagem, etc.  A seguir, requer um planejamento em longo prazo das atividades considerando a propriedade como um todo, incluindo a rotação de culturas, as culturas de cobertura, a adubação e a adubação do sistema e a preparação de equipamentos adaptados ao sistema (semeadoras, espalhadores de calcáreo e de adubos, pulverizadores, etc.).

Recomendações em relação ao inicio do SPD devem seguir o planejamento prévio de tal forma a permitir iniciar com o SPD em pequenas áreas, para o melhor domínio do sistema, o uso de sistemas intermediários (semi-preparo ou cultivo mínimo), a adequação de semeadoras para as condições existentes na propriedade, um programa de erradicação de plantas daninhas de difícil controle, a preparação de pulverizadores com boas condições de aplicação e a readequação de estradas e a divisão da propriedade em glebas.  Paralelo, a busca de assistência técnica especializada é fundamental para o sucesso do SPD.

Critérios para a adoção do SPD

A adoção parcial do SPD, sem atender os requisitos mínimos (ausência de revolvimento ou mínima mobilização do solo; biodiversidade por meio da rotação de culturas e, cobertura permanente do solo pelo uso de culturas para formação e manutenção da palhada) tem provocado inúmeras ocorrências de degradação estrutural, perda do potencial produtivo e incidência de pragas, doenças e plantas daninhas, entre outros. Isto tem feito com que o agricultor movimente o solo, retornando aos sistemas convencionais, desfazendo o trabalho biológico e físico construídos após vários anos e provocando a rápida mineralização da matéria orgânica.

Com a ausência do preparo intensivo do solo, o solo passa a ser amainado pela ação biológica de raízes das culturas em rotação, de organismos (insetos, minhocas, etc) e de microorganismos, com a proteção da cobertura vegetal.  Vários processos químicos, físicos e biológicos são alterados sob essas condições.  A analise desses processos é fundamental para que se estabeleça os critérios a serem observados na adoção do SPD.  Entre esses critérios temos:

-  adubação e a correção química do solo - alguns aspectos químicos a serem observados são a acidez do solo, a toxidez de Al e a deficiência de Ca e de Mg.  A aplicação de calcário e/ou gesso devem atender princípios técnicos e requer uma avaliação criteriosa da fertilidade do solo, com base em análises do solo.  Uma vez atingido o equilíbrio, a adubação do sistema passa a ser prioridade.  O conhecimento sobre a dinâmica de macro (N, P, K, Ca, Mg, S) e de micro nutrientes, assim como as fontes e formulações dos adubos, é fundamental para alcançar a máxima eficiência da correção e adubação antes e durante a adoção do SPD.

-  correção física e biológica do solo – métodos como a analise morfológica do solo, com a ajuda de trincheiras, o exame do crescimento de raízes e a verificação da capacidade de infiltração de água no solo permitem avaliar a existência de camadas compactadas.  O diagnóstico correto da condição estrutural e o entendimento dos processos envolvidos são básicos para a recomendação de práticas mecânicas e/ou biológicas de descompactação.

-  Incidência de plantas daninhas – a identificação de plantas daninhas de difícil controle permite a escolha do melhor método de controle prévio, integrando métodos mecânicos, alelopaticos e químicos.

-  formação de palhada – a escolha de culturas de cobertura requer o conhecimento do comportamento das espécies em cada condição edafoclimática.  Da mesma forma, o método de implantação (sucessão/safrinha, consorcio, sobressemeadura, ...) deve ser escolhido respeitando essas condições.

Outros critérios, assim como os gargalos identificados na adoção do SPD, são apresentados, com a finalidade de permitir a agricultores e técnicos a tomada de decisão sobre o momento e a estratégia a ser adotada durante o período de transição.  O principio fundamental para o inicio do SPD é, sem dúvida, ter uma nova postura no gerenciamento do sistema de produção agrícola, aceitando a necessidade de promover uma mudança definitiva, que deve acontecer de forma gradual e definitiva, evitando o retorno ao sistema convencional e a todos os impactos negativos sobre o ambiente.



[1]  Freitas, P.L.de, Bernardi, A.C.C.  2003.  Princípios e Critérios para adotar o Sistema Plantio Direto.  In: Encontro de Plantio Direto no Cerrado, 7o  Sorriso, MT, junho de 2003. Anais ... Cuiabá, Brasil: EdUFMT (Editora da UFMT).  [Resumo Expandido].  pp.58-64

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