Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Há muito a Agronomia sofre com um processo de desvalorização, fruto da fragmentação em outras profissões, redução de mercado de trabalho, precarização do ensino (excesso de cursos, ensino noturno e à distância), etc.

 

Completa o rosário de problemas a insatisfação dos profissionais com o Sistema Confea / Crea, um tema recorrente nos diversos Congressos da categoria. Com o fenômeno das redes sociais na internet a parcela de insatisfeitos, que se encontrava dispersa, tem conseguido organizar um movimento para criação de um Novo Conselho da Agronomia.

 

Quem gosta do Crea?

Qual o motivo dessa insatisfação? A primeira resposta certamente está na missão do Crea, afinal quem morre de amores por uma autarquia que fiscaliza o exercício profissional no interesse da sociedade? A esta questão somam-se muitas outras queixas, algumas decorrem da ignorância do papel do Conselho, tanto que é comum ouvir as mesmas falas:

-       O Crea não faz nada por mim!

-       O Crea só sabe cobrar!

 

Quem espera do Crea o papel estrito da defesa profissional, a maioria não sabe que este cabe às Associações, à Confederação de Engenheiros Agrônomos e Sindicatos. Sem conhecer a função de cada entidade, com expectativas irrealistas quanto ao papel do Crea e diante de um quadro de desvalorização profissional tem-se aí um caldo de cultura para se eleger um culpado.

 

Para medir o grau de insatisfação a Rede Agronomia (www.agronomos.ning.com) lançou em março de 2016 a enquete “Um Novo Conselho Profissional para a Agronomia?”. As respostas revelaram que 68% é a favor da criação de um novo Conselho Profissional, com apenas 21% contra a proposta e 11% sem uma opinião formada a respeito.

É fácil mudar?

O que fazer então? Sair do Sistema será fácil ou traumático? A Agronomia ganha ou perde com a criação de um Novo Conselho Profissional?

 

Quem é contra o Sistema Confea Crea argumenta que somente um novo Conselho irá garantir todas as atribuições do Decreto 23.196/1933. É bom lembrar que atribuições como engenharia rural, topografia, silvicultura e paisagismo há muito vêm sendo questionadas ou abolidas ao Engenheiro Agrônomo, com perdas significativas de mercado de trabalho. Além disso,como atuar politicamente num Sistema com mais de 300 (isso mesmo, 300!) profissões registradas? Como fiscalizar a Agronomia, atividade tão dispersa no território, se a fiscalização dos Creas se restringe à área urbana?

 

Há também uma aposta no dinamismo de um novo órgão que poderia reaproximar parcela de profissionais ausentes ou inativos no atual Sistema. Outra promessa para um novo Conselho seria a criação de novas Câmaras Especializadas como Engenharia Rural, Produção Animal, Meio Ambiente e outras que tratassem de temas específicos das atribuições profissionais.

 

Por outro lado, argumentos a favor da permanência no Sistema Confea Crea alertam para os riscos envolvidos. A primeira questão a ser considerada é a perda de visibilidade ao trocar um Conselho já estruturado. Com todos os defeitos, o Crea é respeitado social e politicamente, com um histórico de lutas sociais, papel que um Conselho uniprofissional dificilmente desempenhará.

 

A parte financeira é uma das principais questões a serem consideradas porque, com a divisão, a tendência é que o Crea fique com o grosso do patrimônio, como aconteceu também com o CAU. Neste caso, quem espera anuidades menores poderá ter uma surpresa de custos muito superiores para fazer frente às necessidades do novo órgão para desenvolver sistemas, adquirir equipamentos, investir em treinamento, etc.

 

Por outro lado quem aposta no aumento de adesões, uma redução de registro poderá ocorrer em razão das dificuldades de estruturação levando os profissionais mais distantes, pelo interior, a optar pela informalidade.

 

Outra proposta apontada como saída seria criar um Conselho de Ciências Agrárias que reuniria técnicos agrícolas e demais profissionais como zootecnistas, engenheiros agrícolas, florestais, meteorologistas, etc. Mesmo entendendo a dificuldade da proposta, é uma saída a ser considerada.

 

Fim dos Conselhos?

Sem esgotar o tema, há que se pensar na necessidade do País que tende a se reformular quebrando hegemonias e flexibilizando amarras legais. Dessa forma a tendência é que a sociedade possa concluir que os Conselhos profissionais são estruturas superadas, o que pode levá-los à extinção. Nesse aspecto, a separação é prejudicial e pode acelerar esse processo. Quanto mais conselhos, mais difícil será um entendimento nas áreas de sombreamento (que sempre existirão) e criará problemas aos profissionais e empresas, reforçando a tese da extinção.

 

É preciso alertar que o movimento de mobilização poderá contribuir para o fortalecimento da categoria atraindo para a rede de estruturas representativas, as Associações de Engenheiros Agrônomos, profissionais que, de outra maneira se mantiveram afastados da política profissional. Entretanto se prevalecer a ótica estreita de se ater apenas à criação de um órgão sem reflexos na representatividade estaremos fadados a repetir em novas estruturas os mesmos antigos vícios.

 

Resta indagar afinal o que se deseja: apenas a criação de um novo Conselho ou caminhos para a valorização profissional?

 

Gilberto Fugimoto

o autor agradece às contribuições dos colegas João Araújo, Francisco Lira, Dennys Zsolt, Adriano Varella e Gilberto Porto Reis

Publicação original no Jornal da AEARJ, Ano III, nº4, 1º Semestre de 2016. distribuída na 73ª SOEA e 9º CNP em Foz do Iguaçu.

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Comentário de Francisco Cezar Dias em 12 setembro 2016 às 9:40

Concordo com vc Balduino. Na minha visão e experiência, falta de uma cadeira sobre ética e politica profissional e, o pior, baixíssima qualidade das escolas de Agronomia.

Tem gente até hoje achando que o CREA tem que fazer o papel em defesa dos Engenheiros Agrônomos. Isso é brochante e profundamente desgastante.

Comentário de Balduino Puerari Custódio em 12 setembro 2016 às 9:17

De fato poucos são os que participam e o pior é que estes não se renovam, são sempre os mesmos à se perpetuarem  nas cadeiras, pois só trocam de lugar. Há pouca renovação nos CREAs. Entendo que este seja um dos motivos , mas existem muitos outros motivos que geraram a desvalorização da classe.

Comentário de Gilberto Fugimoto em 10 setembro 2016 às 18:14

Marco Antonio,

Concordo com suas observações, especialmente quanto a relembrar aos colegas que nós somos os grandes culpados nesse complexo processo de desvalorização profissional.

Já indaguei em outras ocasiões aqui: qual a sua contribuição para a desvalorização profissional?

Grande abraço

Comentário de Francisco Cezar Dias em 9 setembro 2016 às 13:13

A pessoa atinge uma certa idade e começa a regredir até virar criança novamente. Quanto mais a vida bate, menos aprende.

Ninguém deseja um Conselho II, até porque se conselho fosse bom, ninguém daria. Cobraria.

Queremos nosso órgão de classe, queremos a OEAB. Para nós e por nós.

O resto, bem o resto é resto.

Comentário de Fabio de Sousa em 9 setembro 2016 às 10:11

Parabéns por iniciar esta discussão. Nossa profissão precisa disso, independente da visão de cada profissional em se criar um novo conselho ou não.

Comentário de Marco Antonio Jacomazzi em 9 setembro 2016 às 9:35

Caros colegas, acho importante trazer este assunto a tona novamente, quando discutimos e divergimos acerca da criação  de um novo conselho. Eu, como já exposto em outras discussões sou contra.

Minha opinião é que falta representatividade da NOSSA atuação profissional, assim, somos também culpados pela falta de valorização da nossa profissão.

Muito discutimos sobre a falta de fiscalização do CREA quanto a atividade agronômica e, por isso, o classificamos como não eficiente e leniente a nossa classe. O que sou parcialmente contra este posicionamento, pois, como já discutido não há suficiente representatividade dos colegas engenheiros agrônomos.

O conselho, além de fiscalizar, têm inúmeras outras ações quanto a regular as atividades tecnológicas

A seguir apresento um caso pessoal em que recorri a câmara especializada de agronomia (CEA) do CREASP e obtive parecer favorável a solicitação, que a priori foi negativa.

Sou engenheiro agrônomo Msc. em irrigação e drenagem pela ESALQ/USP e Dr. em hidrologia e recursos hídricos pela FEC/Unicamp, minha área de atuação são projetos de irrigação e dimensionamentos hidráulicos e hidrológicos para utilização dos recursos hídricos na agricultura e sistemas ambientais.

Recentemente estava envolvido em um trabalho técnico sobre disponibilidade hídrica de regularização de vazão por obras hidráulicas de barragem. Foi um trabalho exclusivamente de hidrologia, que no caso, segundo o artigo 5 da Resolução Nº 218, DE 29 JUN 1973, é enquadrado como "recursos naturais renováveis".

Dada a finalização desse projeto, com o recolhimento adequado a respectiva ART de responsabilidade técnica, solicitei ao CREA acervo técnico deste trabalho.

 

Segundo a primeira apreciação do analista do CREA:

"...pré análise resultou em indeferimento do pedido face incompatibilidade entre naturezas dos serviços x atribuições profissionais. 

Caso tenha interesse, poderemos submeter o assunto à CEA para análise final competente...".

 

Após a notificação de indeferimento, solicitei a câmara técnica de agronomia revisão do indeferimento, pois, o engenheiro agrônomo dispõe de tais atribuições profissionais para execução de trabalhos e estudos técnicos em hidrologia e recursos hídricos.

Conforme o artigo 1 da legislação vigente - Resolução Nº 218, DE 29 JUN 1973, o profissional cadastro no sistema CREA/CONFEA, apresenta entre suas atividades primordiais:

 

Atividade 02 - Estudo, planejamento, projeto e especificação;

 

Atividade 03 - Estudo de viabilidade técnico-econômica;

 

Atividade 04 - Assistência, assessoria e consultoria;

 

Tais atividades foram foco do trabalho elaborado no referido atestado.

 

Além do mais, compete ao engenheiro agrônomo, segundo artigo 5 da mesma resolução:

 

"...

I - o desempenho das atividades 01 a 18 do artigo 1º desta Resolução, referentes a engenharia rural; construções para fins rurais e suas instalações complementares; irrigação e drenagem para fins agrícolas; fitotecnia e zootecnia; melhoramento animal e vegetal; recursos naturais renováveis; ecologia, agrometeorologia; defesa sanitária; química agrícola; alimentos; tecnologia de transformação (açúcar, amidos, óleos, laticínios, vinhos e destilados); beneficiamento e conservação dos produtos animais e vegetais; zimotecnia; agropecuária; edafologia; fertilizantes e corretivos; processo de cultura e de utilização de solo; microbiologia agrícola; biometria; parques e jardins; mecanização na agricultura; implementos agrícolas; nutrição animal; agrostologia; bromatologia e rações; economia rural e crédito rural; seus serviços afins e correlatos.

..."

 

Tanto a ciência hidrológica, quanto a sua aplicação como engenharia hidrológica não é exclusividade de um único profissional registrado pelo CREA.

As mesmas disciplinas são cursadas em demais carreiras técnicas como geologia, minas, geografia, engenharia florestal e inclusive na engenharia agronômica.

Portanto, estudos hidrológicos, razão da solicitação deste atestado, são também competência do engenheiro agrônomo, especialmente o presente que é especializado nesta área do conhecimento.

 

Alguns meses depois, foi informado, que meu pedido fora revisado e me concederam o respectivo acervo.

 

Este caso acima apresentado demonstra que, embora o CREA, apresenta todas as dificuldades e deficiências apontadas, ainda trabalha para nós e que as câmaras técnicas buscam nossos interesses.

Se não tivesse o apoio da CEA, imaginem se o conselho de engenharia me forneceria tal acervo.... Dificilmente.

O que realmente falta nas câmaras técnicas é representatividade profissional.

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