Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

(Virtual, é claro!)

 

Engo. Agro. JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO

jviana@openlink.com.br

.

Essa estória de piscinão me faz lembrar aquele ditado: “O brasileiro só manda colocar o cadeado, depois que a porta foi arrombada”. Dois fenômenos recentes nos obrigam a pensar nesta solução, para minorar os problemas das enchentes: o aquecimento global (que aumentou a intensidade das chuvas) e a urbanização (que aumentou as áreas impermeáveis). Infelizmente, como sempre, essa “novidade tecnológica” só chegou ao Brasil com 30 ou 40 anos de atraso, em relação aos EUA e Europa. Mas, podemos correr atrás, para recuperar o tempo perdido. Assim, proponho um mergulho acadêmico nos pontos-chave dessa ainda tão pouco conhecida obra de engenharia.

.

Na Figura abaixo, os piscinões mais conhecidos dos brasileiros: o do Rio de Janeiro e um dos de São Paulo, respectivamente. O 1o., para lazer, numa praia às margens da Baía de Guanabara e o 2o. (este, propriamente para reter a água da chuva), no Pacaembu, na capital de São Paulo. Esqueça, agora, o piscinão de Ramos, que só nos faz confundir o verdadeiro conceito da obra.

.

CARACTERÍSTICAS

Piscinões são reservatórios escavados em bacias hidrográficas com área de A<1km2 (100 hectares), com volumes V<200.000m3, alturas H<6m e que devem esvaziar num prazo máximo de 24 a 72 horas. Lembro que o símbolo “<” significa: menor que. Geralmente são construídos em praças e outras áreas de lazer, com a finalidade de reter o excesso das enxurradas (para evitar enchentes nas ruas), sendo a água liberada aos poucos, através de saídas tipo vertedores e orifícios.

.

O PONTO-CHAVE

Por se tratar de chuvas, duas características são primordiais: o período de retorno (número de anos para voltar a ocorrer chuvas de dada intensidade) e tempo de concentração (numero de horas para a enchente alcançar o máximo). Esses 2 valores, colocados na Equação das Chuvas Intensas (*), nos conduzem ao cálculo da intensidade da chuva. Faltam mais 2: a parcela da chuva caída no solo que escorre, chamada de Coeficiente de Escoamento Superficial e a Área da bacia. Agora, é só usar a equação abaixo, chamada de Fórmula Racional:

Q = (C.I.A)/3,6      onde,

Q = descarga máxima (m3/s)

C = coeficiente tabelado ou calculado (adimensional)

I = intensidade da chuva (mm/h)

A = área da bacia (km2)

.

Um pouco mais de conhecimento de Hidrologia e Hidráulica, dão mais segurança ao técnico que se dispuser a pré-dimensionar um piscinão. Mas, só por curiosidade e numa estimativa grosseira, podemos “chutar” o volume de um piscinão, simplesmente multiplicando a área da bacia por 4 ou 5 centímetros de altura de chuva. Ex.: bairro da Urca (Rio-RJ), A=2 km2. Volume estimado do piscinão:

Vo = 2 x 1.000.000 x 0,05 = 100.000 m3

Arbitrando uma profundidade de 3 metros para o piscinão, sua área deveria ser de 33.333 m2 ou, aproximadamente, 3 campos de futebol. O difícil é encontrar nesse bairro minúsculo, área disponível para a construção.

.

Um detalhe. Em engenharia, tudo é relativo. A área da Urca, p.ex., embora pequena, é duas vezes maior do que a recomendada pela literatura técnica para o uso da Fórmula Racional (Q=CIA/3,6), que costuma superdimensionar as vazões em áreas maiores. As saídas seriam considerar apenas a metade da área ou, então, adotar outros métodos de cálculo e equações, como as da Hidrógrafa, do Soil Conservation Service - SCS (curvas CN),  Santa Bárbara (também dos Estados Unidos), software WinTR-55 (de que falei em outro texto), e outras.

.

(*) I = [1239.T^0,15]/[(t+20)^0,74]

O símbolo “^” significa “elevado ao expoente”.

Usando a Equação das Chuvas Intensas (acima) para a cidade do Rio de Janeiro (Wilken), com um tempo de recorrência de 25 anos e duração de 1 hora (60 min), teremos:

I = [1239 x 25^0,15]/[(60+20)^0,74] = 78,4 mm/h

O piscinão da Urca teria um volume de:

Vo = A.H = 2.000.000 m2 x 0,0784 m = 156.858 m3

.

Para tirar suas dúvidas, consulte a “Bíblia dos Piscinões”, que se encontra neste trabalho do Engenheiro Plínio Tomaz:

www.infinitygs.com.br/livros/livro10_calculos_hidrologicos.pdf

(Cálculos Hidrológicos e Hidráulicos para Obras Municipais)

com nada menos que 452 páginas (ilustradas).

Bom proveito!

Exibições: 241

Comentar

Você precisa ser um membro de Rede Agronomia para adicionar comentários!

Entrar em Rede Agronomia

© 2019   Criado por Gilberto Fugimoto.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço