Rede Agronomia

Rede dos Engenheiros Agrônomos do Brasil

Assistindo ontem a uma entrevista virtual do Vice Presidente da República Hamilton Mourão na TV estatal, ele disse que os garimpos não são o maior problema da Amazônia. Ele é filho de amazonense e trabalhou lá como General do Exército por mais de 4 anos. Como eu também nasci lá (Belém – PA) e discordo dele, resolvi fazer uma rápida pesquisa no Google, da qual resultou este resumo.

O estudo com peixes é importante quando se trata de ecossistema aquático porque estes organismos apresentam diferentes hábitos alimentares e de vida e ocupam diferentes nichos. Além disto, quando se trata de contaminação humana, peixes são o alimento mais contaminado por mercúrio que os homens consomem. (1)

Os peixes são utilizados como suporte na estimativa do nível de poluição dos ecossistemas devido à presença de atividades antropogênicas, motivo pelo qual são considerados indicadores da qualidade do ambiente aquático. É admitida também que na Amazônia o pescado é a principal rota de exposição humana, principalmente para populações ribeirinhas, onde o peixe é fonte importante de proteína na dieta. (2)

O mercúrio (Hg) ocupa um lugar de destaque entre vários metais pesados, associados à contaminação do ambiente aquático devido a sua alta toxicidade. Os dados de intoxicação por mercúrio em humanos relatam que a principal via de intoxicação é através do consumo de peixes, este é o alimento normalmente consumido pelos homens que contém os maiores níveis desse metal (Kitahara et al. 2000).

No Brasil, o Hg é utilizado na mineração do ouro aluvial. Nesta atividade, o metal é lançado no meio ambiente em quantidades elevadas para a formação da amálgama com o ouro.

Das espécies orgânicas formadas, o Metilmercúrio (MeHg) é o mais comum e o mais importante do ponto de vista toxicológico, sendo listado pelo Programa Internacional de Segurança Química como um dos seis produtos químicos mais tóxicos ao meio ambiente de forma global (Gilbert & Grant-Webster 1995). Os compostos organometálicos de Hg têm grande afinidade com os grupamentos sulfidrílico e hidroxila das proteínas e são muito solúveis em lipídios (gorduras), difundindo-se facilmente através das membranas celulares. Devido a essas características, esses compostos são absorvidos e acumulados facilmente pelas células, ocasionando uma maior capacidade de bioacumulação pela biota do que os compostos inorgânicos (OMS 1990).

A Figura abaixo, de propriedade da hypeness.com.br, é mostrada no Google como tendo a Amazônia mais de 2.500 garimpos ilegais, como esse.

Coleta de amostra para análise

Aproximadamente 10 a 20 mg de cabelo são obtidas de cada participante, cortados próximo à sua inserção no couro cabeludo, com tesoura de aço inoxidável, principalmente da região cervical. Após tomada de peso (gramas) e comprimento (centímetros) do peixe foi obtida uma porção de 20 gramas de músculo da região ventral do pescado, que em seguida foi acondicionada em saco plástico, registrada, codificada e armazenada em caixa térmica transportada para o laboratório. (2)

Os níveis de mercúrio em amostras de cabelo considerados seguros na exposição em longo prazo ainda não foram bem definidos. A avaliação para o risco materno é sempre considerado e estudos realizados em décadas passadas em áreas contaminadas já admitiam que níveis de Hg em cabelo materno de 6 µg/g e acima poderiam estar associados com alterações na função cerebral do concepto.

As análises de HgT nas amostras de peixe foram realizadas pela espectrofotometria de absorção atômica através do analisador semi‑automático de mercúrio modelo Hg 201 do Laboratório de Toxicologia Humana e Ambiental do NMT da Universidade Federal do Pará (UFP) utilizando a metodologia desenvolvida por Suzuki et al.

Aproximadamente 75% do mercúrio acumulado em tecido muscular de peixes de água doce estão na forma orgânica. Desse mercúrio orgânico, cerca de 100% é Metilmercúrio, sendo esta a principal espécie orgânica de Hg presente em tecidos e fluidos biológicos (Filho & Campos 1999).

Muitos estudos relacionam a idade, peso e comprimento do peixe às suas concentrações de Mercúrio. Os parâmetros físicos e químicos da água como pH, temperatura, salinidade, condutividade, potencial de oxi-redução, concentração de oxigênio dissolvido, turbidez, presença de íons sulfeto e carbono orgânico dissolvido são fatores importantes para a avaliação da contaminação da biota por Hg. O carbono orgânico dissolvido tem um importante papel no transporte e biodisponibilidade do Hg orgânico e inorgânico, afetando o acúmulo de Hg pelos peixes.

O mercúrio presente na coluna d’água tende a se ligar ao material particulado em suspensão (MPS), tendo este um papel importante no transporte do metal nos corpos aquáticos. O mercúrio liga-se a partículas inorgânicas, partículas de matéria orgânica e partículas biogênicas como bactérias, algas e fitoplâncton.

Toxicologia do Mercúrio

Várias agências internacionais de saúde pública determinam o risco da ingestão de Metilmercúrio para a população em geral. A U.S.EPA, reavaliando os dados de contaminação do Iraque, propôs uma redução da dose de referência oral para o nível de 0,1 ppm por dia (EPA 1997). A Agência de Registro de Substâncias Tóxicas e de Doenças dos EUA propôs uma ingestão de 0,3 ppm por dia como nível de risco mínimo (Davidson et al. 1998). No Brasil a tolerância fixada é de 0,5 ppm, para pescado não-predador e 1,0 ppm, para pescado predador (Brasil 1998).

Com relação à frequência de consumo, no Brasil, o limite máximo permitido pelo Ministério da Saúde para a ingestão do alimento é de 400 g de pescado com concentração de 0,5 µg/g de mercúrio consumido por adulto semanalmente.

O Amazonas é o estado brasileiro onde se consome a maior quantidade de peixe por ano. Uma pessoa chega a ingerir aproximadamente 155 g de peixe por dia. Ao ano, o consumo individual neste estado chega a 55 kg de pescado, enquanto a média do Brasil é de 7 kg (Jesus 2007).

No estudo realizado no Rio Tocantins em Imperatriz – MA, a concentração mediana de HgT registrada foi de 0,74 µg/g e a máxima 8,79 µg/g; bem abaixo, portanto dos rios Tapajós e Negro, afluentes do Rio Amazonas, mostrado acima.

Pinheiro et al. mostraram que os níveis de mercúrio da população da região do Rio Tapajós, especificamente nas comunidades próximas à cidade de Itaituba, variaram em média de 14,1 a 20,8 µg/g com valor máximo de 62,9 µg/g.

Apesar de existirem limites como estes acima citados definidos, a quantidade de mercúrio acumulada pelo homem a partir da ingestão do peixe varia em função da quantidade e da frequência com que o peixe é consumido e dos níveis de Hg presentes nesses peixes. Portanto as concentrações no alimento são importantes, mas a frequência de consumo deste também o é.

O acidente mais conhecido em relação à contaminação mercurial foi o ocorrido na Baía de Minamata (Japão) em 1953 devido ao consumo de pescado contaminado. Naquela época, a concentração de mercúrio nos sedimentos da baía alcançou níveis de até 2.010 mg/kg (peso seco) (Harada 1995). Diversos efeitos neurocomportamentais em humanos foram relacionados à contaminação, como por exemplo: falta de coordenação motora, tremores, redução do campo visual, distúrbios sensoriais, entre outros (Tsubaki & Irukyama 1976).

O MeHg é lipossolúvel e, portanto, atravessa facilmente membranas celulares. Esta forma do metal possui ainda uma baixa velocidade de eliminação por ter uma meia-vida muito longa, por exemplo, sua meia-vida biológica é de cerca de 70 dias em seres humanos (Neathery & Miller 1975) e de 1.000 dias em peixes (Azevedo 2003). O mercúrio age como inibidor e modificador das atividades protéicas mesmo em baixas concentrações devido a sua afinidade com grupos sulfidrila presentes em proteínas e sistemas enzimáticos de diferentes tecidos e órgãos (Azevedo 2003).

Quanto à Piscicultura, os principais caminhos de entrada do mercúrio em sistemas aquícolas de produção são através da alimentação fornecida e dos processos que ocorrem no ambiente aquático local. Peixes criados em tanques, também podem estar expostos ao mercúrio proveniente da deposição atmosférica e dos lençóis freáticos (Hurley & Binkowski 2006).

Devido à existência de controle na qualidade de água e o uso de rações de boa qualidade, alguns estudos comprovam que peixes de pisciculturas apresentam menores níveis de mercúrio do que peixes em ambientes naturais. Dasgupta et al. (2004) ao avaliarem as concentrações de metilmercúrio em paddlefish de pisciculturas e de ambientes naturais nos Estados Unidos, observaram concentrações entre 0,02 e 0,05 ppm para peixes criados e 0,12 a 0,14 ppm para peixes de ambientes naturais.

Morgano et al. (2005) observaram concentrações de THg em peixes de pisciculturas no estado de São Paulo, abaixo dos limites estabelecidos pela legislação brasileira vigente. Nesse estudo, o tambaqui apresentou as menores concentrações de mercúrio (0,0003 - 0,012 ppm), seguido pela carpa (0,063 ppm), matrinxã (0,0003 - 0,074 ppm), pacu (0,0003 - 0,078 ppm), piauçu (0,0003 - 0,183 ppm) e pela tilápia que apresentou as maiores concentrações de Hg (0,0003 - 0,217 ppm).

Altos níveis de mercúrio têm sido encontrados em farinhas de peixe, por não haver fiscalização da matéria prima utilizada. Farelos e óleos de soja e milho são os exemplos mais comumente utilizados para substituir a farinha de peixe e óleos de origem animal em rações comerciais para peixes.

 

REF.:

[1] Mercúrio em Peixes – Fonte e contaminação, Daniele Kasper e auxs., UFRJ.

[2] A ingestão de pescado e as concentrações de mercúrio em famílias de pescadores de Imperatriz (MA)

https://www.scielo.br/pdf/rbepid/v19n1/1980-5497-rbepid-19-01-00014...

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Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 6 janeiro 2021 às 15:39

CARACTERÍSTICAS DO MERCÚRIO

Único metal líquido. O mercúrio é o único metal líquido á temperatura ambiente porque seu ponto de fusão é muito baixo: menos 38 graus centígrados. Isso quer dizer que somente abaixo dessa temperatura ele é sólido, se não estiver combinado com outros elementos. A densidade do Mercúrio é 13,6 kg/L, ou seja, 1 L de água pesa 1 kg, mas 1 L de Mercúrio tem 13,6 kg de massa.

Uso na extração do Ouro. O mercúrio foi inserido no Brasil no final da década de 50, mas apenas os anos 80 e 90 foram marcados pelo uso do mercúrio metálico para a queima de amálgama de ouro na Amazônia, o que tornou possível, a extração do ouro granulométrico, disperso no sedimento de fundos em diversos corpos hídricos da região.

Outras fontes de Mercúrio. No entanto, as altas concentrações de mercúrio encontradas no ecossistema amazônico são atribuídas não só à mineração de ouro, mas também à presença de solos com concentrações relativamente elevadas de mercúrio de origem natural, ao transporte atmosférico e à deposição de mercúrio de origem antrópica.

Como é usado no garimpo. As minúsculas partículas de ouro espalhadas na areia e na lama do rio são agregadas pelo mercúrio, formando o que se chama amálgama. Posteriormente, o garimpeiro queima o mercúrio com um maçarico, para que evapore, restando apenas o ouro. Além de intoxicar o garimpeiro com o vapor que sai de sua queima, o mercúrio acarreta outro problema: grande parte dele perde-se no meio da lama e da areia, chegando à água do rio.

Toxicidade no meio ambiente. O mercúrio (Hg) é considerado um dos metais pesados de maior toxidade presentes no meio (Lopes, 2012). Naturalmente, pode-se encontrar este elemento nas formas orgânica e inorgânica, no estado sólido, dissolvido e na fase gasosa. Se caracteriza por volatizar-se à temperatura ambiente e seu ciclo biogeoquímico envolve processos ocorridos no ar, solo e água. A alta toxidade deste elemento se dá pelo fato deste não sofrer degradação ambiental, inserindo-se na cadeia alimentar aquática onde sofre processo de bioacumulação, sendo mais expressivo nos organismos de topo da cadeia.

Como intoxica os peixes. Os processos biológicos que causam a intoxicação nos peixes estão intimamente ligados à ingestão e difusão, ocorridos respectivamente no trato digestivo e nas brânquias.

Área de contaminação. Devido à estabilidade quando na atmosfera, seu vapor pode ser transportado para regiões distantes e remotas, ampliando significativamente a área de contaminação. Daí um garimpo poder contaminar um rio ainda limpo, mas de outra sub-bacia. O vapor de mercúrio permanece na atmosfera por longos períodos, fazendo com que seja distribuído globalmente. Tal fato explica a capacidade que o mercúrio apresenta de ser encontrado em regiões que não possuem fontes pontuais de contaminação (AMARO et al., 2014).

Usos variados na indústria. Compostos deste material são utilizados industrialmente com diversas finalidades como medicamentos, produção de cloro-álcalis, cosmético, em dispositivos de fiação e interruptores, instrumentos de medição e controle, iluminação e tratamento dentário. Um dos usos mais longevos é nos termômetros de Mercúrio.

Sua forma mais tóxica. Ao ser lançado no ambiente é carreado para os rios pelo escoamento de águas superficiais provenientes das chuvas, persistindo no meio aquático em forma livre, ou iônica. Após sua inserção no ambiente hídrico, este contamina os organismos por meio de cadeia biológica em sua forma mais tóxica, o Metilmercúrio (CH3Hg). Quando entra na cadeia alimentar aquática, ele passa por processos de acumulação, principalmente em peixes.

 

FONTE: Concentração de mercúrio em peixes da Amazônia, Marlon Washington da Silva e César Augusto Maximiano Estanislau, Centro Universitário Newton Paiva, Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde, Minas Gerais – MG, 2015.

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 4 janeiro 2021 às 15:30

A DOENÇA DE MINAMATA

Comentário de JOSÉ LUIZ VIANA DO COUTO em 4 janeiro 2021 às 11:25

O PERIGO DO MERCÚRIO EM PEIXES

Na Amazônia brasileira, povos indígenas, comunidades ribeirinhas, pescadores, quilombolas, camponeses e extrativistas habitam áreas próximas a rios, baías e igarapés - portanto, são altamente expostos a compostos que contêm Mercúrio. As mudanças na cobertura/uso da terra levam a frequentes incêndios florestais, que liberam grandes quantidades de Mercúrio na atmosfera e nos sistemas aquáticos.

O Mercúrio bioacumulado em peixes nas regiões de garimpo, quando excede o limite de consumo recomendado pela Organização Mundial de Saúde, ataca o sistema nervoso central e originou uma doença nova chamada de Mal de Minamata.

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